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A mudança de cabelos em filmes e novelas e a banalização do preconceito

Oi, gente! Tudo bem?

Hoje eu gostaria de propor uma reflexão sobre um post que vi no Facebook e sempre gera muita discussão. Acredito que o maior poder que temos na vida é o de refletir e questionar nossos pré-conceitos, nossas ideologias e tudo que aprendemos na vida como certo e errado. Por que não olhar de novo? Será que nossa verdade é absoluta?

Bem, na minha opinião, não. Estou sempre reavaliando as coisas em que eu acredito, lendo, me empoderando e, principalmente, ouvindo. O exercício da empatia, de se colocar no lugar de alguém que vive algo que não faz parte da sua vivência é extramamente difícil e só conseguimos fazer isso plenamente quando simplesmente ficamos quieto e ouvimos. E por que estou dizendo tudo isso? Bom, eu sou branca, hetéro, nascida em uma família paulistana de classe média. Como posso eu saber o que um negro passa em seu dia-a-dia e falar que racismo não existe? Como posso eu, enquanto hétero, falar que ser gay no Brasil é facil? Como me atreveria a falar sobre meritocracia em uma sociedade em que eu estudei a vida inteira em escola particular enquanto tem gente em greve na escola pública? É justo isso? Não. E eu, enquanto privilegiada, no sentido de não ter passado por nenhum preconceito, de nunca ter sofrido opressão e de não ter meus direitos básicos negados, preciso, simplesmente, calar minha boca e ouvir.

Tá bom, Mari, mas o que isso tudo tem a ver com o título do post: “A mudança de cabelos em filmes e novelas e a banilização do preconceito?”

Bom, hoje eu vou falar um pouco sobre: ser mulher, padrões de beleza, cabelos crespos e cacheados e símbolos. Explico: O post que eu vi hoje em grupo no Facebook era sobre o texto “Um cabelo vale mais do que mil palavras”, escrito por Carolina Pulice no Lado M. O texto fala lindamente sobre a transformação da personagem de Camila Pitanga na novela Babilônia, na qual ela interpretava uma mulher negra, moradora da favela que possuia uma barraca na praia. Na novela, Camila tinha cabelo cacheado (leia bem, cacheado e não crespo – cachos esses bastante “babylisados”, sem volume, sem frizz. Aquele cacheado tipicamente aceito e querido em nossa sociedade). Lá pelas tantas da novela, Camila sofreu aquela repaginação, aquele dia de princesa, aquela reviravolta completa. Do guarda-roupas e maquiagem passando, claro, pelos cabelos, tudo foi mudado para dar à personagem a ideia de elegância, mulher poderosa, fina, etc, etc, etc. E como feito isso? Claro, Camila ficou com o cabelo ainda mais liso, com ondas discaramente forçadas em uma escova modeladora que tinha a clara intenção de ser uma es-cova mo-de-la-do-ra.

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Mas, tá, e qual é o problema? “Foi só uma mudança de visual!” “Ela tinha o cabelo cacheado, para ter uma mudança ou ficava todo liso ou ondulado.”

Amigas, vou contar um segredo para vocês. Nenhum personagem nasce e vai sendo mudado no decorrer da novela. O autor já tem uma prévia do que fará com aquele personagem para chegar na história que ele quer transmitir. É claro que existem mudanças no decorrer do curso, imprevistos acontecem, o clamur do público por algum personagem é considerado, MAS todo personagem já tem uma história pré-estabelicida. Quem vai ficar com quem, quem vai ficar rico, quem vai ficar pobre, a vilã, a boazinha, a que vai sofrer um acidente… enfim, e em o que cada uma dessas histórias vai desdobrar. Uma personagem não começa pobre e vira rica sem que o autor tenha pensado nisso antes. E há um estudo sobre esse personagem, o autor personifica essa pessoa e o figurinista, produtor, diretor vão ajudar a dar uma cara e a mostrar para o público quem é essa pessoa. Ninguém começa cacheada por acaso nem muito menos fica semi-lisa por acaso. Quando há uma transformação dessas são considerados os padrões de beleza, sim, os símbolos da nossa sociedade, sim. Nada é por acaso. Tudo absolutamente TUDO comunica e cabe a nós interpretar essa mensagem.

Fiz faculdade de Comunicação e uma das minhas aulas era sobre o poder da imagem na comunicação. Um dia estudamos o poder da imagem na política. As roupas usadas pelos políticos, as fotos dos santinhos (sim, aqueles que a gente joga fora), as notícias que a gente vê no jornal, TUDO TUDO TUDO é pensando para construir no imaginário do público uma imagem sobre aquele político. E, quer saber mais? Essas imagens que são passadas sempre consideram o que o público espera. Nunca vou me esquecer de um exemplo que o professor deu. Nas eleições de 89, quando o Collor ganhou, foi feita uma pesquisa e descobriram que os brasileiros buscavam por um político corajoso, jovem, que tivesse culhão para enfrentar tudo que o país tinha vivido e pronto para mudar.Ao mesmo tempo, queriam um cara de família, blablabla. Com isso, o marketing do Collor plantava notícias na mídia que mostravam sua jovialidade, sua coragem, praticando esportes radicais e ao mesmo tempo elegante em seu terno. As fotos dos materiais idem.

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Inclusive, pensem no Lula. Ele só foi eleito depois de ter o cabelo alisado, mudar o jeito de se vestir e ficar mais elegante, “visualmente” mais aceito pelas classes mais altas.

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Acha que na novela é diferente? Será? O que é socialmente mais aceito? Cabelo crespo ou cabelo liso? O que sempre foi sinônimo de cabelo “bom”? Que todas queriam ter? O cabelo da negra ou o cabelo da branca? Quem que é a madame da novela? Quem se veste bem, com roupas elegantes, de marca?

Ah, mas hoje o cabelo cacheado “está na moda” (veja bem, coloco entre aspas porque apesar de ser um argumento usado por muitas meninas, cabelo não é moda e moda passa e isso não sufieciente quando falamos em algo que faz parte do dna de tanta gente – se assim for, quando a moda passar a gente faz o que com o nossos cabelos?), estão tendo que nos aceitar. Sim, falou bem. O ca-chea-do. Aquele cabelo que foi socialmente embraquecido para ser aceito com “dicas para ter cachos mais bonitos”, “dicas para deixar os cachos mais abertos”. Aquele cabelo milimetricamente feito com babyliss, no qual metade do cabelo é lisa e a outra metade tem cachos perfeitos. Isso é aceitação? E os crespos? E os blacks? E o cacheados naturais, com volume e frizz e o ondulado volumoso? Foram parar a onde? Ah, mas tem a Sheron Menezes, aquela outra menina das 19h, A Thais… tem, é verdade. Mesmo tendo blacks e crespos tembém produzidos, é um avanço. É, que belo avanço! Maaaaas

Quando foi que você viu uma transformação que o cabelo do personagem da novela/filme era um alisado sem vida e virou um belo crespo? Quando foi que você viu o cabelo crespo/cacheado sendo retratado como uma mudança boa? Que deixou a mulher mais poderosa? Mais elegante? Melhor sucedida?

Alguns exemplos?

  • Monica Iozzi, na Novela Alto Astral, precisava disfarçar que era rica. Sua transformação:

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  • Já na novela Regra do Jogo (atual das 21h), a personagem loira classe média muda para favela e friza, arma e coloca tranças no cabelo.

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Para completar, uma conversa entre o marido, surpreso com a mudança e a mulher, exibida ontem (20/10):

— “Cê acha que tá aonde?! No Ritz de Paris? A gente é favelado, amorzão! Não era essa a proposta? Se integrar na comunidade, se divertir no meio do povo, tudo junto e misturado?! Desde quando dread no cabelo é ruim? Só cabelo lisinho agora que é bacana?! Sai fora! Sabe o que é isso aí? É recaída burguesa!”

Quêdizê, cabelo burguês é liso e cabelo “de favelada” é armado, frizado, com tranças?

  • Hermione Granger, em Harry Potter, tinha o cabelo ondulado beeeem volumoso no primeiro filme e foi alisando o mesmo no decorrer dos filmes.

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Anne Hathaway no filme “O Diário da Princesa”, na qual é falado claramente que ela precisa mudar o cabelo para ser uma princesa.

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  • Julia Roberts em “Uma Linda Mulher”, de prostituta à esposa de empresário

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Enfim, exemplos não faltam.

E para concluir, imagino você que não concorda comigo (e está no seu direito, claro!) mas, é só um filme/ é só novela. Bem, eu vivi dos 11 anos aos 14 com o cabelo preso ou com escova. Dos 15 aos 17 com franja milimetricamente alisada com chapinnha, quando, até os 18, passei a fazer progressiva “só para tirar o volume” do cabelo. Até que perdi tanto os cachos que resolvi alisar de vez. E dos 19 aos 21 fiz alisamentos fortes para manter o cabelo liso. Não gostava das pontas retas, então passava secador e chapinha para modelar. O que filmes, revistas e novelas tem a ver com isso? Foram neles que eu aprendi que o meu cabelo era feio, era volumoso demais, com frizz demais. Foram neles que eu quis ter um cabelo igual ao da Lindsay Lohan em “Meninas Malvadas”, mas tinha que começar no meio do cabelo, não podia ser o cabelo inteiro. Não podia ser fechado demais, nem armado demais. Não podia ter frizz. Não podia ser cabelo. A publicidade  me ensinou que existiam produtos milagrosos, técnicas maravilhosas e que eu só ficava “feia” se eu quisesse. Os amiguinhos criticando meu cabelo preso na escola, os apelidos e as criticas quando eu usava o cabelo volumoso e as dicas na Capricho me mostravam como ter o cabelo dos sonhos. Então, digo, para vocês, o que os filmes e novelas nos falam importa, sim, representativade importa, sim. Se sentir aceita e bem consigo mesmo importa, sim.

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