Pegada ecológica e cabelo natural: dicas para um consumo mais consciente

Costumamos sonhar em deixar nossa marca no mundo, não é verdade? Nossa passagem pelo planeta deixa impactos, nem sempre positivos. E não há dúvida de que o nosso consumo faz parte de um ciclo que afeta a vida de outras pessoas e do meio ambiente. Nesse post, vamos conversar um pouquinho sobre o “peso” dessa nossa caminhada.

Pegada ecológica e cabelo natural

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Você já parou para pensar quantas áreas produtivas foram necessárias para produzir os bens que você comprou? Quanta água foi empregada? Quanto resíduo seu consumo gerou? O termo “pegada ecológica” é “uma forma de traduzir a extensão de território que uma pessoa, cidade, país, região ou até a população do mundo todo utiliza, em média, para suprir suas demandas de consumo produtos, bens e serviços”. (fonte) Alguns pesquisadores têm se esforçado para mensurar cientificamente  essa relação entre o consumo e a disponibilidade de recursos naturais disponíveis por meio desse conceito.

É pensando na responsabilidade que temos com a natureza e as futuras gerações  e sabendo que a natureza tem recursos limitados, que retomamos esse debate por aqui com algumas sugestões de mudança no dia-a-dia. Bora lá!

Dicas práticas para um consumo mais consciente

1. Reduza: Experimente usar menos produtos e fuja da tentação de criar um “estoque”. Tem gente que fica tão ansiosa para encontrar um cosmético “x” que leva logo 3 ou 4 exemplares do mesmo produto pra casa. E aí o que pode acontecer? Não gostar do resultado e deixar o produto encalhado no fundo da prateleira; não dar tempo de usar tudo antes do prazo de validade ou até mesmo ser seduzido(a) por uma outra oferta e comprar novas coisas antes mesmo de ter terminado o uso daquilo que você já tem.

Somos  o tempo todo bombardeados por publicidade. E quando o assunto são as novidades na cosmética para beleza, o apelo é ainda maior. Muitas vezes, a gente compra sem qualquer planejamento. Quer ver só? Para construir esse post, fizemos uma pesquisa através da ferramenta de enquete no Instagram do Cacheia e o resultado é bem preocupante. A grande maioria já comprou produtos sem necessidade.

Pegada ecológica e cabelo natural: dados sobre consumo por impulso da pesquisa cacheia. gráfico informa que a maioria das pessoas já comprou algum produto por curiosidade ou impulso.

E olha aí quanta gente já deixou o produto vencer na prateleira por falta de uso. Tudo isso só reforça que a gente precisa desacelerar. Segure o impulso de acompanhar todos os lançamentos de cosméticos que anunciam por aí. Pesquise e se planeje melhor para evitar desperdícios e exageros.

Pegada ecológica e cabelo natural: dicas para consumo consciente. gráfico de pesquisa cacheia demonstra que 46,1% das pessoas já deixaram um produto capilar vencer por falta de uso. outras 53,9% afirmaram que não.

2. Reutilize ou recicle: Embalagens de shampoo, condicionador, máscaras, cremes, dentre outros, podem ser reaproveitados. Eu por exemplo, costumo reaproveitar embalagens de produtos em spray para usar como borrifador e guardo também as embalagens menores para carregar um pouquinho de leave-in nas viagens. Nunca se sabe quando a gente vai precisar dar uma ajeitadinha no cabelo, não é mesmo? Outra opção é transformar essas embalagens em “porta trecos” para guardar lápis, pincéis e outros objetos pequenos.

Pegada ecológica e cabelo natural: dicas para um consumo mais consciente. foto com porta lápis, porta maquiagem e porta trecos com material reaproveitado, embalagens de máscara e óleo de coco vazias.

Na pesquisa do Instagram, descobrimos que 64% das pessoas (507) já tinham reaproveitado embalagens de produtos e isso é ótimo! Nós pedimos que as leitoras enviassem uma foto do material reaproveitado e o resultado foi uma surpresa: além de transformar embalagens em porta trecos, muita gente também estava cultivando plantinhas! Olha que boa ideia! Dá até para plantar uma babosa e aproveitar para fazer um tratamento caseiro né não?

Pegada ecológica e cabelo natural: como reaproveitar embalagens como de produtos de cabelo. foto com potes da marca Lola Cosmetics com plantinhas.

Se as atividades manuais não são o seu forte, não tem problema. Caso conheça algum ponto de coleta de materiais recicláveis na sua cidade, ao invés de jogar tudo no lixo comum, você pode separar as embalagens plásticas para reciclagem. O site Ecycle tem um mecanismo de busca que pode ajudar a encontrar postos de coleta na sua cidade, além de orientações sobre esse processo.

3. Economia em todos os processos: Na hora de lavar os cabelos, cuide para que a torneira ou o chuveiro não fique aberta sem necessidade. Evite usar o secador de cabelos, deixe os fios secarem naturalmente sempre que possível para reduzir o consumo de energia.

4. Escolha marcas que tenham compromisso com o respeito ambiental: Aos poucos, muitas marcas têm investido em produtos que substituem componentes sintéticos e/ou derivados de petróleo por ingredientes de origem vegetal (fontes renováveis e biodegradáveis) e também em pesquisas para construir uma cadeia de produção sustentável no aspecto ambiental e social.

Claro que a gente não pode acreditar em tudo que vê por aí e achar que se a palavrinha “natural” aparece no rótulo estamos levando pra casa algo 100% vegetal e “ecologicamente correto”. Para não se deixar enganar, vale a pena ter uma noção geral do que são esses tais cosméticos, “naturais”, “orgânicos” ou “veganos”.

Num entendimento mais rigoroso, as diferenças são estabelecidas conforme descrito no quadro a seguir. Na prática, nem todas as marcas conseguem cumprir a essa expectativa e às vezes o uso dos termos pode ser bastante confuso no Brasil. Para ajudar na identificação desses cosméticos, vale a pena ficar de olho em selos como o Ecocert, que são concedidos às marcas que seguem estritamente a lista de itens “proibidos” e “liberados” nesse segmento de cosméticos.

Pegada ecológica e cabelo natural: dicas práticas para consumo consciente. tabela para entender a diferença entre cosméticos à base de produtos naturais, cosméticos naturais, cosméticos orgânicos e cosméticos veganos.

Já reparou o número de produtos que exibem termos como “sem parabenos” e “sem corantes e fragrâncias artificiais” no rótulo? Esses são alguns exemplos de substâncias que tem sido evitadas por cosméticos naturais e orgânicos. Essa preocupação não é à toa, mesmo porque, segundo o SEBRAE¹, uma pessoa usa em média 9 produtos cosméticos e de higiene pessoal diariamente. É muita coisa entrando em contato com a nossa pele!

Por isso mesmo, além de considerar o aspecto ambiental, ou seja, os impactos do processo de produção e dos resíduos sobre a natureza, outro fator é central para entender o crescimento do número de marcas que adotaram esse direcionamento. É o que a gente pode chamar de um “padrão” de consumo mais atento às formulações, que busca produtos considerandos mais “saudáveis”. Aliás, não é a toa que técnicas como low poo e no poo estão se popularizando entre cacheadas e crespas. Nessas técnicas, a busca é por por tratamentos mais profundos e lavagens menos agressivas para a saúde dos cabelos³. Ainda nesse contexto, vale lembrar que alguns componentes como parabenos e corantes são associadas a alergias e irritações na pele e que outros são centro de debate por suspeitas ainda mais graves quanto aos feitos sobre o organismo humano. Tudo isso tem reforçado a desconfiança em relação aos ingredientes artificiais.²

O consumo de cosméticos naturais ou de cosméticos orgânicos também pode ser visto como um modo de valorizar uma forma de produção mais “devagar” e atenta à todas as etapas de produção. Por isso mesmo, é comum que  as marcas destaquem a porcentagem de insumos “rastreados” (cuja origem e percurso é conhecida) e ofereçam  produtos “artesanais”, “feitos à mão” e em menor escala. Outro fator que também têm incentivado o crescimento do consumo de cosméticos naturais e orgânicos é a valorização de iniciativas locais e de pequenas(os) empreendoras(es).

Por fim, a preocupação com os animais também motiva a produção e o consumo de cosméticos baseados em insumos vegetais que não possuem nenhum componente animal e são cruelty free (livres de crueldade animal/sem testes em animais).

Claro que na prática, essa “mudança de hábito” não é fácil. Seja pelos desafios de produção, seja pelos desafios do próprio consumo. Apesar da variação de preços, é muito comum que cosméticos naturais e orgânicos custem mais quando comparados aos produtos “convencionais” em função do tipo e da qualidade das matérias-primas.

Alguns exemplos de marcas que possuem cosméticos naturais e/ou cosméticos orgânicos

Nós pedimos às leitoras que indicassem marcas que se inspiram em alguns desses princípios. E e vou te dizer viu? Vivendo e aprendendo! Descobri várias marcas novas bem legais. Reunindo sugestões, fiz  essa listinha. Minha dica para quem ficar interessada(o) é pesquisar no Google pela marca e realmente conhecer de perto a proposta. Vale lembrar que o SAC das empresas também é uma ótima ferramenta para conhecer melhor os produtos, o histórico e a proposta de valor da marca.

Pegada ecológica e cabelo natural, dicas praticas para um consumo mais consciente. Foto com marcas que tem linhas livres de sulfatos, petrolatos, corantes e fragrâncias artificiais: Anazoe Twoone OneTwoo Eco Cosmetics, Kah-noa, Soul Power, Fefa Pimenta, Paula Breder BetoBita, Multi Vegetal, Cativa Natureza, Flora Fiora, Semearte, Live Aloe, Weleda, Alva

E onde comprar tudo isso? Algumas marcas possuem seu próprio e-commerce, revendem em feiras e até mesmo em loja física. Falando desse nosso mundo online, não posso deixar de mencionar que a loja  Meu Cabelo Natural,   nossa querida parceira em muitas ações no blog  trabalha com algumas das marcas contempladas na lista acima.

Para encerrar, gostaria de dizer que esse é um texto que convida a pensar sobre determinadas questões. O conhecimento não ocupa espaço, então por mais que nada disso faça parte da realidade de muitas pessoas ou não seja uma prioridade por quaisquer motivos, é sempre interessante revisitar o tema aqui no blog. Não estou dizendo que eu sou um modelo de consumo plenamente consciente, ecologicamente correto. Por outro lado, sigo na crença de que boas ideias devem ser compartilhadas.

Referências bibliográficas:

¹Mercado de orgânicos no mundo da beleza: uma oportunidade para as MPE. Disponível em: <sebraemercados.com.br/mercado-de-organicos-no-mundo-da-beleza-uma-oportunidade-para-as-mpe/>

² Se tiver, não compre. Cosmetologia do Bem.

³’Petrolatos’ e Crescimento Capilar. Cabeleira em Pé. <https://www.cabeleiraempe.com.br/2017/05/petrolatos-proibidos-derivados-de-petroleo-e-crescimento-capilar-projeto-rapunzel.html>

Pegada Ecológica: instrumento de avaliação dos impactos antrópicos no meio natural. Disponível em: <http://www.ifba.edu.br/professores/armando/eng531/Unid%20I/Artigo_Pegada_ecologica.pdf>

Conheças as diferenças entre cosméticos naturais, orgânicos e convencionais. Ecycle. Disponível em: <https://www.ecycle.com.br/component/content/article/67/2099-cosmeticos-organicos-naturais-convencionais-deferencas-tipos-materia-prima-composicao-definicao-consumidor-como-fazer-receitas.html

Nota técnica. Pegada Ecológica. <http://www.pegadaecologica.org.br/2015/nota-tecnica.php>

Para entender mais:

Curso online e gratuito do SENAI voltado para Educação Ambiental.

Cosméticos naturais: tendência ou consciência?. <cosm-eticos.org/dermatologia-e-ciencia/cosmeticos-naturais–tendencia-ou-consciencia->

Cosmetologia do Bem

Ecycle

Leia também:

Comprar menos, comprar melhor: sobre consumo consciente e cabelo natural

Produtos capilares, mercado e consumo

Beleza, meio ambiente e sustentabilidade

Agradecimentos:

Nosso muito obrigada às leitoras Alice C. Campos, Agata Tyanne, Danielly Ferreira, Camila Cristina e Vick David que nos enviaram fotos para o post e a todas que deixaram no inbox as sugestões de marca.

 

Maressa De Sousa

Maressa, 24 anos, baiana. Mestranda em Antropologia. Cabeleireira. Ama filmes e livros de ficção. Para ela, a transição capilar marcou o início de muitas outras transformações.







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Texto maravilhoso. Estive ontem na loja Meu Cabelo Natural e esse foi um dos assuntos que tive com a Carla.
Importante comentar aqui também sobre o quão incrível é o conteúdo de vocês. Comecei a técnica low poo no finalzinho de 2016 e entrei na transição capilar alguns meses depois. O blog cacheia foi uma das minhas maiores inspirações. Sou grata por tudo que aprendi nessa caminhada com vocês.


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