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Nos últimos meses recebemos muitas mensagens com uma mesma dúvida: “Como convencer minha mãe a me deixar passar pela transição capilar?”.  Tentando responder essa pergunta percebi que ela passava por várias outras questões que vou tentar apresentar pra vocês. No final da postagem incluo algumas sugestões para falar sobre transição capilar com mães, pais, familiares, etc.

Família e direito sobre o corpo

Nós sabemos que a família é considerada uma esfera de formação. Aquela que deveria orientar, ensinar os primeiros passos, proteger, cuidar. Mas para além disso, a família é também uma esfera de regulação. É na esfera familiar que somos expostos às primeiras regras de convivência e de comportamento e que somos apresentados a uma certa moral. Geralmente obedecemos a essas regras por respeito e/ou por uma dependência financeira. Assim, a família – seja qual for sua formação- cumpre aquele papel de dizer “não” ou “sim” para algumas coisas, e muitas dessas coisas incidem sobre o corpo: poder pintar ou não o cabelo, poder colocar ou não um piercing, poder fazer ou não uma tatuagem, poder alisar ou não, etc.

Recentemente, o caso de uma mãe que fez uma espécie de relaxamento no cabelo da filha de 2 anos causou uma discussão enorme nos grupos de cacheadas e crespas do Facebook. Enquanto algumas pessoas apontavam para o perigo para a saúde da criança, outras questionavam o direito da mãe de realizar um processo como esse nos cabelos de uma criança tão pequena e defendiam o direito de que a criança pudesse crescer e escolher o que faria com os próprios cabelos. Essa discussão é muito interessante porque em geral as pessoas consideram que a família é uma esfera totalmente separada, está lá no âmbito privado onde ninguém deve meter a colher. Mas a coisa não é bem assim e nesse caso a questão acabou caindo numa discussão pública que tomou proporções enormes. Vale lembrar também que no ano passado a atriz Halle Berry conseguiu na justiça uma proibição para que o ex-namorado e pai da filha de Halle não alisasse os cabelos da criança alegando que as mudanças que vinham acontecendo poderiam causar danos psicológicos para a menina.

transição capilar e família - menina

Estou dizendo tudo isso para mostrar que essas questões são mesmo muito delicadas. Quem pretende entrar em transição capilar e ainda depende financeiramente de um responsável legal pode enfrentar vários obstáculos. Já recebemos relatos de meninas que queriam passar pela transição capilar mas não conseguiram permissão para isso porque o(s) responsável(is) não gostariam que elas cortassem os cabelos, porque achavam que os cabelos lisos são mais bonitos e mais fáceis de cuidar, porque preferiam pagar uma escova progressiva a comprar cremes para o cronograma capilar. A capacidade de negociar essas coisas não é igual para todas, por isso esse problema realmente vai influenciar muito na decisão pela volta ao cabelo natural. E isso nos leva à questão seguinte.

Famílias e suas várias trajetórias

Dependendo do histórico familiar, da estrutura, das condições econômicas, etc; a família exerce papéis diferentes nas vidas de cada um dos seus membros. Assim, enquanto algumas meninas são incentivadas a gostar dos seus cabelos desde cedo, outras vão ter seus cabelos alisados e/ou relaxados antes mesmo de completarem os primeiros cinco anos de vida. Enquanto algumas meninas são proibidas de alisar até determinada idade (mesmo quando pedem), outras vivem num ambiente que favorece que esses processos aconteçam mais rápido (como é o caso daquelas que tem uma mãe ou tia cabeleireira por exemplo – meu caso).  O modo como a autonomia de cada criança, pré-adolescente, adolescente ou jovem  será tratada tem relação com o ambiente familiar onde se vive.

Em boa parte dos casos que tive contato, a figura materna é a responsável por iniciar o processo de alisamento no cabelo das crianças. Em primeiro lugar porque geralmente a tarefa de cuidar das crianças no tipo de sociedade em que vivemos é atribuída às mulheres; em segundo lugar porque muitas mães que já possuem cabelos alisados/relaxados e que também iniciaram esse processo precocemente. A ausência de informação sobre os cuidados com cabelos crespos e cacheados é um fator importante para o início desses processos que se repetem mais tarde no cabelo das filhas.

O processo de transição capilar pode representar para algumas mulheres uma reversão desse ciclo. Inspiradas pela volta ao cabelo natural das filhas, muitas mamães também decidem entrar em transição. Esse foi o meu caso e o caso da Raysa também. A Raysa fez uma postagem lindíssima sobre como incentivar as mães a voltar ao cabelo natural onde fala um pouco sobre essa experiência. Pensando nessa postagem e no pedido de vocês vou tentar sugerir alguns passos importantes para falar com família, familiares e amigos sobre transição capilar.

Falando sobre transição capilar com a família

  • Explique tim tim por tim tim: quem está nesse mundo de blogs, sites, páginas e grupos de ondulas, cacheadas e crespas já tem contato com nosso dicionário e sabe o que termos como transição capilar, big chop e day after significam. Mas para o resto do mundo essas coisas ainda são pouco conhecidas. Por isso na hora de comunicar a decisão de entrar em transição capilar é muito importante explicar o que é o processo, qual é o objetivo e qual é a importância de passar por ela pra você. Por que você decidiu voltar ao cabelo natural? Essa é a grande questão.
  • Dialogue: Durante a transição você pode esbarrar com algumas frases preconceituosas da família, de parentes ou até de amigos. Às vezes o preconceito das pessoas mais próximas só fica visível quando entramos em transição. Ajudar a desconstruir esses preconceitos em torno do cabelo natural é uma parte importante desse processo. É verdade que a tarefa exige muitaaaa paciência e às vezes exige também firmeza de posicionamento.
  • Mostre inspirações: Uma imagem vale mais que mil palavras! Na internet existem várias fotografias que ilustram bem a transição capilar. Essas inspirações de mulheres reais que passaram pela transição mostram que é possível sim, voltar ao cabelo natural.

Outras leituras sugeridas:

Relacionamento amoroso e transição capilar: um capítulo a parte

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