Relacionamento amoroso e transição capilar: um capítulo a parte

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A transição capilar envolve muitos desafios. Para algumas mulheres abandonar o uso de relaxamentos e progressivas que aconteceu durante anos é o problema inicial. Lidar com a diferença de texturas quando o cabelo natural começa a crescer é outro momento complicado para algumas de nós. Não são raros os depoimentos postados em grupos de crespas e cacheadas no Facebook que confessam um estado de baixa estima influenciado pelo desajuste com o próprio cabelo.

Como se não bastasse, muitas mulheres enfrentam também a crítica de colegas, amigos, do grupo familiar e ainda pior: não encontram o apoio que precisam nem mesmo nos companheiros com quem se relacionam.

Nos grupos que acompanho, muitas mulheres falam sobre uma resistência masculina justificada pela preferência do cabelo longo. A ideia de que o cabelo comprido é mais bonito e mais sensual aparece recorrentemente. As justificativas dadas por esses homens para serem contra a transição capilar apelam ainda pela preferência pelo cabelo liso em detrimento do cacheado/crespo.

Com tudo isso, essas mulheres são forçadas a colocar na balança um relacionamento (às vezes bem longo) e a vontade de fazer a transição. Muitas consideram o fato de que conheceram o companheiro quando ainda tinham o cabelo liso e que por isso, ele está “acostumado” com esse visual. Num cenário de baixa autoestima causada pelas constantes críticas, pela pressão psicológica e pelo medo do abandono, muitas mulheres desistem.

Dito tudo isso, convido todas as leitoras e leitores para refletir sobre relacionamento amoroso e transição capilar. Partiremos considerando em primeiro lugar que o relacionamento amoroso não precisa nos inscrever num lugar específico, cerceado e imutável. Iniciar um namoro gostando de assistir filmes de comédia e dois anos depois preferir assistir ficção científica é perfeitamente possível. Do mesmo modo, começar a namorar usando o cabelo longo e mudar o corte para variar também é uma possibilidade. Conforme essa lógica, usar o cabelo natural não seria algo problemático.

Mas aí entram outros fatores que nos colocam de volta ao ponto de partida dessa postagem: a transição capilar envolve certos desafios. E se é para discutir tudo isso, vamos colocar tudo em pratos limpos: muitas pessoas são influenciadas pela ideia racista de que o cabelo crespo/cacheado não é belo nem aceitável.

“Pra que você você vai fazer isso? Vai querer ficar com o cabelo de neguinha da África?”

(Um dos absurdos que ouvi quando decidi entrar em transição)

Acredito que o fato de que um homem branco/pardo esteja se relacionando com uma mulher parda/preta não impede que ele em algum momento seja racista. O racismo vai muito além de chamar alguém de “macaco”, de considerar alguém inferior ou menos capaz em função de sua cor, de impedir que alguém de participar de determinados espaços por ser negro/negra. Se esse homem diz que só vai continuar o relacionamento se ela alisar e desistir de usar o cabelo “duro”, também estará cometendo um ato influenciado por uma crença racista.

Segundo ponto importante: levados por uma lógica machista disseminada e diluída no senso comum, outras tantas pessoas tendem a acreditar que as mulheres precisam buscar necessariamente aquilo que os homens gostam. Me digam aí, quantos textos em revistas, sites ou chamadas em programas televisivos vocês já ouviram com o seguinte tema: “pesquisa sobre a preferência masculina”. Eu poderia listar vários exemplos e posso garantir que essas pesquisas sobre a opinião masculina são mais frequentes do que aquelas que pretendem investigar a preferência feminina.

Evidentemente, ninguém quer viver só e às vezes até ficamos curiosos para saber como essas preferências têm sofrido mudanças. Entretanto, a coisa se torna um problema a partir do momento em que cria uma necessidade de adequação aos padrões de preferência masculina para garantir a conquista de um companheiro amoroso.

“Você não vai arrumar namorado com esse cabelo”

A frase acima é velha conhecida de muitas mulheres que passaram pela transição. Aparentemente, alguns acreditam que o uso do cabelo curto e/ou o cabelo crespo/cacheado exclui as mulheres do “jogo da sedução”, tornando-as menos desejáveis que as demais. O que está bem longe de ser verdade. Mal sabem eles o quanto o cabelo natural podem fazer com que muitas de nós se sintam mais bonitas e ainda mais confiantes!

É certo que alguns homens se opõem à mudança de suas companheiras porque não compreendem a importância desse processo. Nesse caso, uma boa conversa pode resolver a questão. Num relacionamento em que existe respeito e admiração por qualidades que vão além do visual um do outro, dá pra tirar isso de letra. E a notícia boa é que algumas  mulheres têm encontrado no namorado/marido o apoio que precisam para fazer a transição.

relacionamento e transição capilar - casal

Quisera eu que fosse assim para todas as mulheres e que o relacionamento não fosse motivo de sofrimento para elas! Mas não é bem assim que a coisa tem se configurado. Por isso é preciso atenção para perceber até que ponto a oposição de amigos, familiares – e principalmente a oposição do companheiro – é uma questão de “gosto”/ignorância e quando essas atitudes refletem uma posição racista, machista, autoritária, abusiva e negativa que fere a autonomia sobre nosso cabelo e nosso corpo.

Além de cabelos naturais e saudáveis, um dos maiores legados deixados pela transição é a possibilidade de empoderar cada vez mais as mulheres que passam por ela.

 


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