Tranças, memórias e o que há por baixo da minha arapuca

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texto sobre tranças e identidade na foto uma mulher negra de cabelos trançados

Semana passada estava atrasada e por isso andava com mais pressa do que de costume. Escolhi passar  pelo beco que corta caminho para a rua de cima. Depois de dobrar a primeira esquina, onde começa a escada improvisada, ouço o dono do bar chamar a moça que estava sentada próxima ao estabelecimento dizer: “Que arapuca! Coisa mais feia”! A arapuca em questão, é meu cabelo e esse incômodo e urgência de criticá-lo não me surpreende. É inclusive frequente quando escolho deixá-lo volumoso e com pouca definição.

A-RA-PU-CA. Arapuca é uma armadilha feita para capturar qualquer ser que se aproxima: animais pequenos ou de grande porte. Arapuca também pode ser sinônimo de encrenca, de engano, de trapaça. Há que se ter cuidado com  uma arapuca para não se deixar prender. Essa curiosa comparação dá indícios de que há quem tema o cabelo crespo como teme uma arapuca. Há quem tenha medo de tocar, quem tenha medo de ser capturado pelo desconhecido, pelo outro estranho. Pela abertura que se coloca bem no meio do caminho.

Mas se esse homem pôde dispor da palavra como quis, farei o mesmo. Hoje quero pensar que arapuca pode ser também um emaranhado de laços e trançados. Alguma coisa que é agregadora. Nesse sentido pelo menos, posso pensar a experiência do cabelo natural e das intervenções sobre ele. Me permitam contar agora, de forma muito breve, sobre uma dessas intervenções.

Quando eu era criança minha mãe fazia trancinhas pequenas na cabeça inteira para que eu fosse à escola. Anos depois, durante a transição capilar, retomei essa memória das tranças em função de uma dificuldade prática: durante a volta ao cabelo natural, minha raiz crespa aparecia e destoava do comprimento esticado pelo alisamento. Para texturizar os fios, fazia as tranças. Algumas vezes usava as tranças como penteado, outras vezes desfazia pra criar um efeito “frisado”. Era a retomada de um hábito esquecido.

Este ano resolvi trançar o cabelo inteiro novamente, desta vez com algumas extensões e com a ajuda da minha mãe. E lá estava eu voltando a ser criança, sentada enquanto ela repartia e trançava meu cabelo. E o mais curioso é que naquele dia meu pai que se aproximou e quis fazer as tranças também. Para quem olha de fora esta até poderia ser uma cena “comum”. Mas para quem viveu uma criação sisuda e mais distante, esse gesto por si só já representava muito.

“Eu gosto de trançar”, disse meu pai com um sorriso contido. E o ato de trançar para ele também remetia a outras memórias. Elas contavam a história de quem trabalhou muitos anos na roça fazendo cestos e outros objetos e que por isso sabia fazer com maestria as tais tranças que me tomaram horas naquele dia.

Poucos minutos depois de começar a trançar, ele desistiu da tarefa. Não por faltava destreza, mas porque estava sem jeito: percebeu que as mãos calejadas puxavam alguns fios da trança sem querer. Eu insisti que ele continuasse mas acabou deixando de lado. Mesmo assim ficou meio sorridente e admirado com o resultado.

Esta semana, mais uma vez fiz tranças. Hoje era eu trançando os cabelos da minha mãe, invertendo a posição, resgatando um saber, refazendo laços. Por baixo dessa minha “arapuca” há uma história sendo retomada. Atos assim são mais que estéticos, não tenho dúvida.

Maressa De Sousa

Maressa, 24 anos, baiana. Mestranda em Antropologia. Cabeleireira. Ama filmes e livros de ficção. Para ela, a transição capilar marcou o início de muitas outras transformações.







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Blog Comments

Que bela lição ! Tranças também me trazem boas memórias ! ❤

Ficou lindo !! Aliás te acho linda de qualquer jeito… Amo tranças !!! De vez em quando tranço também.. Você foi uma das minhas inspirações para assumir meu cabelo natural… Obrigada por seus textos. Beijo no coração.


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