Crônicas Pessoal

Cabelo crespo, feminismo e identidade negra: o que uma coisa tem a ver com a outra?

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Cabelo, feminismo e identidade negra: parece que eu recortei um monte de palavras no jornal, joguei em um saco e tirei na sorte, não é? Virou quase um poema dadaísta. Mas não gatinhas, essas COISAS TEM MUITO A VER. Na verdade, acho difícil separá-las, estão super interligadas. Carne e unha, sabem? Se você está nesse blog, com certeza tem contato com essas coisas, mas talvez nem saiba.


Mas que coisa é essa de feminismo? É querer ser melhor do que homem?

Não. Não. Não. Aprendam com a tia e espalhem a novidade: o feminismo está longe de ser um movimento homogêneo, mas todas as vezes que dizem que “feministas querem ser melhores que os homens”, um filhotinho de gato morre. É SÉRIO. Dizer isso em um mundo que apenas alguns detém privilégios é, no mínimo, injusto. O feminismo é sobre conquista da nossa liberdade.

Vamos entender: o machismo é uma estrutura que delega diversos privilégios aos homens, como a liberdade sexual, o acesso à educação superior ou o controle do próprio corpo. São privilégios porque apenas os homens têm. Por isso, o feminismo jamais será igual ao machismo, já que é um movimento igualitário, é uma reação, enquanto o patriarcado, e o machismo, são a dominação sobre as mulheres que está arraigada na estrutura social. Se você concorda que nós mulheres merecemos as mesmas oportunidades que os homens, sendo tratadas como seres humanos dotados de autonomia, bom, você é feminista. Sem contrato. Sem carteirinha. Simples e sem letras miúdas.


Verdade que o feminismo só tem mulher feia?

Eu acredito em mulheres feias. Acredito. Acredito.

Nós acreditamos na ideia hardcore que mulher não tem obrigação de ser “linda”. Nós não somos obrigadas a ser belas, amores. Isso é o mais incrível do feminismo, porque acolhe mulher de bigode e mulher depilada, acolhe as barbiezinhas, me acolhe, acolhe a trans (que é mulher), e você também! O feminismo quer pegar todos esses padrões que nos aprisionam e picotar em mil pedacinhos. No feminismo, todas as mulheres têm espaço. (inclusive as que odeiam o feminismo!) Você pode ser aquilo que chamam de “feminina” e ser feminista. Você pode ser lésbica, hétero ou bissexual. Você pode até não ter uma classificação binária de gênero. A moral da história é que o feminismo não é um livro cheio de regras chatas, na verdade, a única coisa que o feminismo luta para garantir a todas nós é LIBERDADE  e AUTONOMIA.

Ok, realmente o feminismo é legal, mas as mulheres já conquistaram muitas coisas. Qual a necessidade do feminismo hoje?

Antes de irmos aos indicadores pessoal, sugiro fortemente que leiam o texto da Claudia, sobre como se sente uma mulher. É rapidex, e é foda para baralho. Aposto um pacote de bala chita que vocês vão amar o texto.

Mas, voltando às necessidades do feminismo.

  • Mesmo exercendo as mesmas funções, nós ainda recebemos menores salários que os homens. Cadê a justiça disso, pessoal?
  • De acordo com a ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% das trans* estão se prostituindo no Brasil. Isso é compulsório, porque o mercado de trabalho não aceita as travestis. 
  • Apenas em 1932 nós conquistamos o direito ao voto. Antes disso nós não podíamos sequer eleger representantes.
  • Muitas meninas perdem tempo que seriam dedicados aos estudos, porque pra algumas pessoas, lugar de mulher é na cozinha. Makes sense.
  • Uma mulher foi em uma festa e pegou 10? Vadia. Um homem foi na mesma festa e pegou 10? Garanhão. Realmente faz muito sentido limitar a liberdade sexual das gurias, não é?
  • Mulheres têm que se dar ao respeito. Homens já nascem com direito ao respeito. É uma coisa absurda, já que respeito é algo que todo ser humano, ou animal, merece receber. Mulheres são seres humanos. Próximo.
  • Normalmente, as mulheres são consideradas pelo senso comum como as responsáveis pela má educação dos filhos, não os pais. (Quem nunca ouviu aquele tio falar “que criança atentada, cadê a mãe??” que atire a primeira pedra)
  •  A cada duas horas o SUS recebe uma mulher vítima de abuso.
  • 6 em cada 10 pessoas conhecem uma mulher que já sofreu com a violência doméstica. 
  • Você acha normal que os comerciais de limpeza se dirijam diretamente às mulheres, em 90% das vezes?
  • Nós não somos sequer representadas na indústria do cinema.
  • As mulheres negras recebem 40% menos que os homens brancos no Brasil.

 

Tudo bem, fui convencida, mas o que isso tem a ver com meu cabelo?

Tem tudo a ver com seu cabelo! A indústria do entretenimento, os meios midiáticos, jornais, revistas, publicidade, enfim, estabelecem padrões de beleza muitas vezes inalcançáveis; Esses padrões são ainda mais crueis para nós, mulheres, uma vez que temos sempre que agradar aos homens. Imagina, então, os padrões para mulheres negras? O cabelo loiro e liso ainda são o padrão dominante. Então, aí está a novidade do dia: o feminismo vem para te dizer que nós não precisamos ser como as mulheres da televisão. Não temos obrigação de sermos magras, gostosas, loiras, lisas, altas, baixas, peitudas, pele reluzente, brancas.

O racismo que sofre na pele

Convidei a minha amiga-gata-linda-sensacional Laura, que ilustra esse post, para falar sobre o racismo. (já que eu sou branca, né mores).

lauraflôr“O racismo não deve ser entendido como uma relação sempre de violência explícita, na qual um indivíduo usa seu privilégio branco para inferiorizar o outro. Se você entende racismo sempre como atos isolados que ocorrem só dentro de campos de futebol, você está entendendo isso errado. O racismo, assim como praticamente todas as formas de opressão, está marcado na estrutura social e quem está submetido a ele vai viver isso constantemente. O racismo não é apenas sobre alguém me dizer que meu cabelo é ruim, me cantar com um “crioula sem vergonha!” ou me oferecer bananas para eu me calar. […] O racismo é quando uma criança cresce ouvindo histórias com as quais ela nunca vai poder se identificar plenamente, é quando ela nunca se parece com as personagens dos contos de fadas, é quando ela ganha barbies loiras no natal, quando ela brinca de ser mãe de bonecas que não se parecem em nada com ela, quando ela nunca vai sentir que existe realidade na realização de seus sonhos porque afinal os cachinhos sempre foram dourados, a pele sempre foi branca como neve, os cabelos de rapunzel eram loiros . O racismo é quando sua mãe tem medo da rejeição que você vai sofrer na escola se soltar seu cabelo, […] O racismo é quando as pessoas são negras e nem sabem disso, inconscientemente fazem questão de negar sua ancestralidade e fazem de tudo pra apagar todos os traços que remetam a ela, funcionam dentro desse contexto racial como sujeitos de sua própria opressão, não falam sobre isso, não se sentem empoderadas, mantêm-se em seu lugar socialmente destinado, respeitam o estabelecimento racista das coisas. […] O racismo é quando a beleza negra é sempre questionável, porque quanto à beleza da Jennifer Lawrence, da Scarlett Johanson, ninguém NUNCA teve a menor dúvida, agora quanto à Lupita sou obrigada a ouvir “Porra, Laura, essa mulher não tem nem peito!” , que ela parece o Pelé ou qualquer outra babaquice sem tamanho […] O racismo é quando a mulher negra é objeto, é a rainha no carnaval e no seu dia a dia um sujeito marginalizado, […] O racismo é quando as pessoas usam eufemismo, te chamam de morena, falam que seu cabelo é cacheado, tem medo de te ofender. O racismo é quando todos os seus traços raciais são o que é considerado feio, indesejado esteticamente, o anti-padrão. […]”


Portanto, qual a relação entre feminismo, identidade negra e cabelo crespo?

A relação consiste justamente no elemento básico de todo o texto.

Dou um doce pra quem acertar.

Justamente a liberdade! Estamos aprisionadas pelos padrões de beleza, e soltar os cabelos, além de feminista, é um ato político. Sabe aquela velha história que cabelo de preto é ruim, e cabelo de branco é bom? Pois é, essa velha história racista é externalizada em nós que temos cabelo crespo, e ficamos mal. Então, todas as vezes que você solta seu cabelo crespo e cacheado, você diz um foda-se pros padrões, você diz que quem manda no seu corpo e no seu cabelo, é você. É você afirmando a sua autonomia e sua liberdade. É você dizendo que cabelo crespo é lindo SIM. Se você é negra, o ato de resistência é ainda maior.É você dizendo que boca grande é bonita sim. É você dizendo que seu nariz e sua pele são lindos sim. É você dizendo, em suma, um belo foda-se.

Assumir o cabelo crespo em contextos de hegemonia branca é um grito de liberdade.


Exercício do foda-se

É terapêutico e faz muito bem. Não tem problema ser acima do peso se isso não prejudica sua saúde. Não tem problema ter seios pequenos. Não tem problema ter boca grande, ou pequena. Não tem problema ser alta “demais”. Negra “demais”. Branca “demais”. Feia “demais”. Não tem problema nenhum ser nada disso, porque não fomos feitas para agradar ninguém, muito menos macho.

Liguem o foda-se, porque vão ter que nos engolir.

(Uma reflexão ainda mais aprofundada sobre cabelos e a estética negra, pra quem se interessou sobre o assunto)


Atualização: Depois da publicação desse texto, a Maressinha linda entrou para a equipe deste blog e publicou um post maravilhoso sobre identidades.

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