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O feminismo negro no Brasil

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A história que vou contar nessa postagem se passa no Brasil, mas a foto que ilustra o post não é de uma brasileira. O motivo é bem simples: essa mulher, Sojourner Truth, diz em 1851 algo que dá pistas iniciais sobre a conversa que proponho hoje.”Acaso não sou uma mulher?” É o que se pergunta Sojourner Truth naquele ano ao perceber que existia um “código de gentilezas” supostamente dirigido às mulheres e que essas gentilezas não eram dirigidas a ela, uma mulher que trabalhou tanto quanto um homem, que recebeu muitas chicotadas e teve seus filhos arrancados de seus braços e vendidos como escravos. Sojourner Truth, mulher negra que se tornou empregada doméstica após a abolição da escravatura, que não recebeu nenhuma gentileza, que não recebeu ajuda para subir numa carruagem, que não foi levantada por um homem ao passar por uma poça d’água. O que ela mostra nesse discurso de dois séculos atrás é que sua trajetória como mulher negra tinha algo de singular. Ela não viveu sob as mesmas condições, não ganhava as mesmas gentilezas, sofreu outros golpes.

Os tempos são outros, mas as mulheres negras permanecem ocupando cargos mais baixos, ganhando menos que homens brancos, mulheres brancas e homens negros. Só para se ter uma ideia: 60% da mortalidade materna ocorre entre mulheres negras, contra 34% da mortalidade entre mães brancas segundo o Ministério da Saúde. O que esses números dizem? Por que a chance de morrer entre as mulheres negras é mais alta? Que tipo de tratamento esses números revelam? Vale lembrar também que o Mapa da Violência revelou um aumento de 54% em dez anos no número de homicídios de mulheres negras no Brasil.Mqoqa2N

A ideia de uma fragilidade feminina – a tal concepção de “sexo frágil” atribuída às mulheres – foi (e ainda é) utilizada para justificar a divisão entre quem supostamente precisa ser protegido (mulheres) e quem protege (homens), quem detém o poder e o domínio da força e quem é subjulgado.  Mas espera lá! As mulheres negras nunca foram reconhecidas como frágeis. O movimento feminista lá no seu início, composto em sua maioria por mulheres brancas e pardas de classe média e escolarizadas, defendeu que as mulheres pudessem trabalhar e imagine só, qual era a sensação das mulheres negras que já estavam na labuta há muito tempo. É essa a discussão que Sueli Carneiro traz no texto “Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero“.

A pergunta que se faz é para quais demandas o feminismo está voltado e para quais outras ele pode se abrir. Dizer que há desigualdades entre homens e mulheres – um problema de desigualdade de gênero portanto – não resolve todas as questões. É preciso então alargar esse bojo e considerar a raça como um ponto de discussão. Não há uma mulher universal, não somos todas iguais. Um feminismo que pretende libertar todas as mulheres precisa olhar para as opressões de gênero, classe e raça, é isso que Sueli e tantas outras feministas negras defendem.  Assim somam-se novas pautas.

Infelizmente, do lado de fora, e especialmente nas redes sociais cresce o número daqueles com pouco ou nenhum interesse na produção feminista, imagine então no feminismo negro! Talvez por isso tanta bobagem seja dita. Peca-se mais por preguiça que por falta de informação.

Dentre as lutas que passam pelo feminismo negro citadas por Sueli Carneiro está a luta contra o racismo, erradicação da discriminação sexual, a luta por direitos humanos, lutas por políticas públicas na saúde, luta contra o genocídio da população negra, debate em torno das mulheres negras e o mercado de trabalho, discussão sobre as biotecnologias e suas consequências, etc. Além disso, as discussão sobre representação, sobre mulheres negras e seus símbolos de luta e resistência, sobre relacionamentos afetivos e sobre participação política estão muito efervescentes. Não é pouca coisa!

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O feminismo no Brasil teve e tem participação importante das mulheres negras da classe trabalhadora. No texto “Feminismo no Brasil: uma trajetória particular”, Cynthia Sarti mostra que o feminismo alcançou as camadas médias brasileiras e ganhou aqui novos contornos. Mas as possibilidades que os anos 60 trazem para as mulheres como os métodos anticoncepcionais e o acesso ao ensino superior evidentemente não alcançam todas as mulheres. Cynthia Sarti dirá que a independência feminina teve classe e cor, lembrando que muitas mulheres negras ocuparam nas residências o lugar do cuidado, possibilitando que mulheres de classes mais altas chegassem ao espaço público. A autora ressalta que hoje os tempos são outros, mas considero importante destacar esse aspecto da história, não como um modo de demarcar “quem sofre mais” e “quem sofre menos”, (até porque esse medidor não existe) mas de abrir mesmo a discussão considerando que não partimos do mesmo pé, que nossas falas são marcadas por trajetórias diversas. E ao dizer isso acho que não estou contando nenhuma novidade porque insisto nessa tecla aqui no Cacheia faz tempo! Minha aposta é que as diferenças podem ajudar em alguma medida na construção desses movimentos de luta, desde que elas possam ser vocalizadas e participar da construção do debate.

Em “Tecendo o fio, aparando as arestas: o movimento de mulheres negras e a construção do pensamento negro feminista” Eliane Borges da Silva dá indícios de uma grande insatisfação das mulheres negras em relação aos companheiros de militância. O sexismo dentro do movimento negro faz com que o debate sobre a participação das mulheres negras cresça. Mas se por um lado, o movimento negro não era até então um espaço de participação igualitária, o movimento feminista também apresentava alguns problemas. A autora aponta para o I Encontro Nacional de Mulheres Negras realizado em 1988 no Rio de Janeiro como um divisor de águas. Isso porque muitos eventos de caráter feminista realizados anteriormente deixaram certo incômodo no ar e as discussões eram consideradas bastante elitistas e exclusivistas. Os olhares de fato ainda não estavam todos atentos às questões de gênero, classe e raça. Eliane Borges aponta ainda para a dificuldade encontradas pelo Movimento de Mulheres Negras para estabelecer diretrizes e lidar com as diferenças em função da diversidade de pessoas que participavam do movimento. Demorará algum tempo para que enfim, fique evidente que as diferenças e a pluralidade são justamente uma das chaves de reflexão para sair do labirinto.

Os marcos destacados abaixo se referem principalmente às iniciativas no âmbito mais acadêmico da coisa, vou ficar devendo um pouquinho das iniciativas que não aconteceram necessariamente atreladas a essa esfera e que eu sei que são diversas. No entanto, espero que trazer esses pontos destacados por Eliane Borges possa ser interessante para pensar na construção do movimento das mulheres negras como um processo bastante tenso e cheio de desafios, mas que avança e cresce e que está em constante movimento.

Alguns marcos importantes

  • (1988) I Encontro Nacional das Mulheres Negras – Valença/RJ – busca pela definição de um projeto político de atuação e busca da identificação das várias concepções e formas de trabalho com ou por mulheres negras nos movimentos sociais e especificamente no movimento negro
  • (1988) Fundação do Geledés Instituto da Mulher Negra
  • (1991) II Encontro de Mulheres Negras – Salvador/BA) – Objetivos relacionados à necessidade de uma militância mais ativa. Reconhecimento de que somos todo(s) influenciado(a)s por uma estrutura social marcada pela pluralidade, pelo racismo e pelo machismo. Reconhecimento de que as mulheres negras não são um grupo unitário, tanto na concepção política quanto nas metodologias de trabalho. Os problemas de diretrizes, a escassez de recursos das entidades, as lutas internas e a desproporcionalidade de participantes aparecem como problemas a serem enfrentados.
  • (1992) Surge o Criola que teve como objetivo criar e consolidar uma organização de mulheres negras
  • (1992) Criação do Dia da Mulher Afro-latino-americana e afro caribenha durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas – Santo Domingos (República Dominicana). Estipulou-se que este dia seria o marco internacional da luta e da resistência da mulher negra.
  • (1993) I Seminário Nacional de Mulheres Negras – Atibaia/SP – evento que convoca unidade para avançar na organização das mulheres negras.
  • (1993) Seminário Nacional de Políticas Públicas e Direitos Reprodutivos das Mulheres Negras – Itapecerica da Serra/SP – o evento buscava discutir políticas públicas e saúde, especialmente temas relacionados à maternidade, sexualidade e controle de natalidade.
  • (1997) I Reunião Nacional de Mulheres Negras – Campinas – Avaliação do II Encontro de Mulheres Afro-caribenhas e afro-americanas e definição da representação Brasileira.
  • (1995) IV Conferência mundial sobre a Mulher – Beijing (China) – discussão da questão racial a nível mundial
  • (1997) II Reunião Nacional de Mulheres Negras – Belo Horizonte/MG – continuidade das discussões levantadas na primeira reunião, eleição de mais representantes brasileiras.
  • (2015) Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver 

Fonte:

SILVA, Eliane Borges da. Tecendo o fio, aparando as arestas: o movimento de mulheres negras e a construção do pensamento negro feminista. 

SARTI, Cynthia. Feminismo no Brasil: uma trajetória particular. 

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero.

 

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