Pessoal

A ditadura do cacho perfeito

Lembro-me de sentar na cadeira do salão de beleza, franzir os lábios e fechar os olhos. Minha felicidade por estar ali após nove meses de transição era tão grande, eu estava tão segura da minha decisão que tinha medo de parecer boba por estar com um sorriso imenso enquanto a cabeleireira cortava mais de dois palmos do meu cabelo. Eu sabia o que eu queria. Eu queria me libertar, eu desejava me encontrar, ter, enfim, o meu cabelo natural novamente.

Grande corte feito, eu saí maravilhada. Amassava o pouco cabelo que eu possuía naquele momento. No caminho, eu pensava em fotografá-lo, entrar num dos famosos e enormes grupos para cabelos cacheados e mostrar para todas as meninas: esses são meus cachos perfeitos. Foi o que eu fiz.

Contudo, a reação de muitas das pessoas que comentaram a minha foto, foi bem diferente do que eu imaginava. Perguntavam se eu tinha mesmo tirado toda a química, avisaram-me que meu cabelo era tipo dois. A moça que mais me marcou, convidou-me a procurar outro grupo, eu tinha ondas, meu cabelo não era cacheado.

De repente eu havia ignorado todos os elogios e me concentrei na incapacidade do meu cabelo de ser o tal cacho perfeito. Eram predominantemente ondas e, realmente, apesar do volume, só algumas pontas meu cabelo formavam cachos completos. Quem eu era, de fato, não interessava. Lá estava meu cabelo fora do novo padrão em que eu me inseria.

Convido todas as leitoras do Cacheia a se aproveitarem do que aconteceu recentemente com a Beyonce e sua filhinha. Proponho que, no meio de toda nossa indignação por ver um abaixo assinado em que pessoas pediam para a cantora pentear o cabelo da filha, nós observemos nosso próprio gosto pessoal. Quantas vezes, na nossa ânsia por ver o cacheado em alta, curtimos fotos nas redes sociais de cacheados volumosos e bem marcados enquanto ignoramos as ondas e os crespos extremos, os sem definição? Quantas vezes lutamos contra nosso próprio frizz porque ele não está enroladinho nas nossas molas que deveriam ser “rebeldemente comportadas”?

Fazendo uma breve análise do senso comum atual, acredito que poucas pessoas admitiriam que querem o cabelo da garotinha penteado por ele ser crespo. Não, crespo tudo bem, mas, assim, tão pra cima? Tudo bem ser afro, mas não forma nenhum cachinho?

Muitas pessoas do próprio movimento de volta aos cachos não entendem que a essência é se aceitar, ser você mesmo, ser natural. Se somos naturalmente cacheadas, ótimo. Se somos crespas ou onduladas, ótimo também!

Que luta é essa que saiu da transição e estacionou no combate aos cabelinhos levantados, ao volume, à falta de definição? Que natural é esse que precisa urgentemente de uma técnica de finalização milagrosa que faça nosso cabelo ser idêntico ao daquela menina do vídeo? Quando é que realmente a transição vai resultar em você, mulher, brasileira, mestiça, única?

Hoje eu sei que meu cabelo não precisa de mais definição. Tenho certeza que o cabelo da filha da Beyonce dispensa pente. No meu íntimo, depois de ter me libertado da ideia de que meu cabelo precisa ser liso, sei com convicção que ele não precisa também ser perfeito. O objetivo é sair do padrão, jamais criar outros. Meu cabelo só precisa ser exatamente o meu cabelo.

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