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Sobre empoderamento, geração tombamento e afins

Uma palavra anda circulando muito nas redes sociais e aqui no Cacheia também. Nos últimos tempos tenho pensando muito sobre ela e decidi finalmente tirar um tempinho e escrever sobre o assunto. A palavra em questão é empoderamento. O termo está presente não só dentro dos movimentos sociais e da militância feminista mas em várias áreas do conhecimento: administração, saúde, economia, psicologia, política, etc. Sabendo disso, fica evidente que estamos falando de um termo que se desdobra e serve a interesses diversos.

Para tentar sintetizar, a idéia de empoderamento pode assumir basicamente dois caminhos:

Empoderamento pode se referir a uma dimensão coletiva de participação e luta política por direitos: Aqui estão inclusas as lutas por um desenvolvimento alternativo; lutas pelo fortalecimento de determinados grupos sociais para que estes possam ser autônomos e falar por si, participar de processos de decisão, etc. Muitas pessoas consideram que o programa Bolsa Família entra mais ou menos nessa chave, empoderando mulheres no sentido de dar condições econômicas para elas se emancipem financeiramente.

Empoderamento pode se referir também a uma dimensão individual de ampliação da liberdade, fortalecimento da autoestima e combate de opressões: Aqui entram, dentre outras coisas, pautas em torno do direito ao próprio corpo: permitir-se usar determinadas coisas (batom vermelho por exemplo, lembram?), explorar capacidade para fazer determinada atividades (“Vai ter mulher na política sim!”), se sentir bela à revelia de uma visão negativa mais geral (“Meu cabelo crespo é lindo!”). O empoderamento individual passa também pela capacidade de reagir a assédios (“Vamos fazer um escândalo!) e poder dizer um sonoro “não” à situações e relações opressivas.

Aqui no blog, a ideia de empoderamento apareceu  principalmente quando falamos sobre a transição capilar. E por que? Porque é através desse processo de volta ao cabelo natural que muitas mulheres vão reconstruir a própria autoestima. É também na transição capilar que muitas mulheres vão se defrontar com várias faces do racismo: enfrentar a resistência da família e dos próprios companheiros, escutar insultos na rua, ser pressionadas no trabalho ou na escola a alisar o cabelo novamente, etc.

Nós sabemos muito bem que a história do Brasil é marcada por um longo período de escravismo que deixou suas consequências. A ideia de que o cabelo crespo é ruim, difícil de “lidar”, que nossa pele e nossos traços não são bonitos é parte dessas relações de poder que foram sendo construídas e que deixaram impactos reais na vida de mulheres e homens negros: racismo, desigualdades sociais, subrepresentação política e violência. É nesse sentido que as iniciativas que buscam positivar a experiência negra, fortalecer a autoestima e colocar homens e mulheres negras em comunicação e articulação são tão importantes.

O número de feiras negras, rodas de conversa, encontros, etc, cresceu bastante e no ano passado um questionamento de parte da militância negra me chamou bastante atenção. Em meados de novembro, no Facebook pessoas apontavam para o caráter capitalista de um desses eventos, em função da comercialização de uma camisa “X”. Mais críticas se somavam ressaltando que os produtos comercializados nessas feiras possuíam um valor bastante alto e portanto, pouco acessível. As falas denunciavam que muitas pessoas haviam se lançado numa onda de consumo. Por trás de tudo isso estava uma discussão ainda mais profunda e um temor pelo esvaziamento de sentido da pauta “estética negra” e a ausência de um conteúdo político e militante. 

Acho que a preocupação com a relação entre capitalismo, consumo e estética negra não é trivial. Já abordei aqui no blog aquilo que eu considero com uma das consequências disso: a venda da estética negra como moda. Esse movimento crescente de volta ao cabelo natural despertou o interesse do mercado e têm propiciado o surgimento de novos produtos para crespas e cacheadas. Se por um lado isso pode ser visto como uma conquista já que muitas mulheres negras podem finalmente se ver representadas nos produtos que consomem ou pelo menos ter opções de compra, por outro, é bem evidente que todos esses lançamentos possuem o interesse lucrativo enorme que veio acompanhado de uma consequência: a tentativa de transformação do movimento de volta ao cabelo natural  tendência a ser consumida. Diante dessas coisas, uma das minhas grandes preocupações é quem está lucrando com tudo isso e quais as implicações dessa lógica de consumo para a vida das pessoas.

Essa discussão me chamou muita atenção e me inquietou ainda mais quando dias depois, algumas mulheres que participaram de um evento com o mesmo caráter reclamaram de um clima de competição dentro das feiras e de um ambiente pouco aberto para o diálogo e a troca. A fala da mulher me lembrou o relato de uma colega que havia sentido algo semelhante no ano anterior: aquele tal clima de competição de quem tá mais bonito(a), com o black power mais alto, mais colorido, etc. E o problema continua: em muitos grupos crescia a crítica à “geração tombamento”, que assumia sua estética negra e que, segundo as críticas, não se envolvia em outras pautas relevantes para a militância como o genocídio da população negra.  “Tombar” é mais ou menos o mesmo que “arrasar”, “deitar”, “lacrar”. Nesse sentido, “geração tombamento” faz referência, conforme o que eu entendo, aos homens e mulheres negras que estão mais preocupados em “tombar” e se autopromover que se engajar outros aspectos de luta política.

Foi mais ou menos nesse sentido que parte da militância negra foi construindo textos contra a “geração tombamento” e fazendo oposição a um empoderamento meramente estético: o empoderamento das selfies e das frases de efeito. O próprio termo “empoderamento” foi alvo de muita discussão. “Empoderamento” vem do inglês, empowerment, e significa num sentido mais literal “dar poder”. É tendo em vista esse significado que surge o questionamento: será que esse poder adquirido individualmente é realmente real? em que medida ele impacta na vida das pessoas e consegue retirá-las de uma situação de opressão? Essa discussão pra mim é uma das mais valiosas para a chave de discussão do blog: por vezes as mulheres que se consideram “empoderadas” não vão conseguir reagir a determinadas situações porque as relações de poder são muito mais complexas do que se imagina. 

É fato que o empoderamento individual no sentido estético não vai colocar um ponto final no racismo que experimentamos no Brasil. Um black power pode ser sinônimo de resistência a um padrão de beleza que trata o cabelo liso como belo e bom  e o cabelo crespo como ruim. Pode representar uma afirmação da identidade negra – embora até a ideia de identidade seja passível de discussão. Ter um black power bonito e se sentir empoderado(a) com ele pode até oferecer alguma perspectiva de reação diante de determinadas opressões. Mas num contexto mais geral, ainda que muitas pessoas tenham assumido seus cabelos naturais e ocupado os espaços mais diversos, o racismo continua batendo à porta. Se homens e mulheres negras não puderem se reunir, trocar informações e se mobilizar para enfrentar as várias dimensões do racismo, 100000 de black powers e 10000 tranças coloridas desfilando nas ruas não vão adiantar. Ainda sim é preciso reconhecer que, pelo menos no Brasil, é através de elementos estéticos como cor da pele, cabelo e traços faciais que sujeitos são lidos como negros. Então as iniciativas voltadas para esse aspecto possuem um valor muito significativo. Se o empoderamento estético puder andar ao lado de outras dimensões de enfrentamento e resistência ao racismo, é ainda mais interessante. É soma. De qualquer modo, existem várias frentes de luta e todas possuem sua importância.

Através da experiência aqui no blog percebi que muitas mulheres se aproximam de muitas discussões e da militância política durante ou depois da transição capilar. Tendo a considerar a crítica feita anteriormente e acreditar que não dá para parar na estética, ao mesmo tempo em que vejo que esse encontro com a própria estética negra pode ser uma entrada importante para a ação política. E notem que eu disse “pode”, no sentido de possibilidade de vir a ser.  Tenho tentado não jogar o bebê com a água do banho, porque é exatamente isso que tem sido feito. É preciso reconhecer que a militância não é caminhada fácil, e é exatamente por isso que não serei eu a pessoa que vai cobrar “carteirinha de militância” de ninguém.  Se sentir forte para embarcar nessa caminhada de luta política é um aspecto muito importante e grande passa dessa força é adquirida a partir do fortalecimento da própria autoestima.

Para fechar, acredito que essa discussão passa também por um aspecto mais linguístico. No ano passado vi o termo “empoderamento” sendo utilizado das mais diversas formas. Desde a moça que usou uma cor de batom que diziam que não combinava com ela, à moça que respondeu um assédio na rua ou enfrentou o racismo dentro da própria família. Como qualquer palavra, “empoderamento” é um termo passível de sofrer algum desgaste com o uso frequente. Quanto mais é usado, mais seus sentidos se multiplicam e mais complicado é explicá-lo. Outro problema da língua é dificuldade de encontrar palavras que consigam traduzir aquilo que nós pretendemos descrever. São nessas ocasiões que eu mesma acabo utilizando termos como “empoderamento”, embora todos os debates recentes tenham me despertado o desejo de encontrar novas palavras para falar sobre o processo de transição capilar aqui no blog. Eis aí a questão: se “empoderamento” não é o melhor termo porque contribui para reproduzir uma lógica colonizadora (essa é mais uma das discussões lançadas), quais outras palavras da nossa língua permitem pensar essas experiências tão diversas? Gostaria muito de ler mais discussões sobre o assunto. Se algum dia encontrar algumas respostas escrevo por aqui. Por hora só tenho dúvidas.

Referências

Rodrigo Rossi Horochovski. Empoderamento: definições e aplicações. 

Leila de Castro Valoura. Paulo Freire, o autor brasileiro autor do termo empoderamento, em seu sentido transformador. 

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