Cinema

Resenha do documentário “Good Hair”, com Chris Rock – 2009

O documentário “Good Hair” – em tradução livre, “Cabelo Bom”, é estrelado e produzido pelo comediante Chris Rock, pela HBO. Assim como em terras tupiniquins, nos Estados Unidos, cabelo liso é chamado “bom”. Essa dualidade, entre cabelo crespo, e cabelo liso, é explorada pelo filme, mostrando o que as afro-americanas são capazes de fazer para alcançar os sonhados fios lisos. Qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência, não é gatinhas?

Quando crianças se acham feias, tem algo errado

O filme começa com imagens das filhinhas lindas do Chris Rock (SIM! O mesmo de Todo Mundo Odeia o Chris), e ele diz assim (em tradução livre): “As minhas filhas são as meninas mais lindas do mundo. E mesmo que eu diga pra elas todos os dias que elas são lindas, às vezes não é suficiente. Ontem, Lola chegou em casa chorando e falou: ‘Papai, por quê eu não tenho cabelo bom?’ Eu fico imaginando, como ela apareceu com essa ideia?'”

A partir dessa indagação (“de onde minha filha tirou a ideia de que o cabelo dela não é bom?”), Chris mostra depoimentos de celebridades, de pessoas comuns, de salões de beleza, expondo uma indústria que fatura milhões vendendo cabelo liso. Claro que, por ser um comediante, ele mostra essas situações todas sempre de forma bem engraçada.Então não se preocupem, não é um daqueles documentários de quatro horas sobre baleias. Good Hair é bem engraçado.


A realidade estadunidense versus a realidade brasileira

A experiência de assistir ao documentário é bastante curiosa. Por um lado, eu me identifiquei com várias das questões ali problematizadas: químicas de relaxamento que são feitas em crianças, padrões de beleza ideais e majoritariamente brancos, supressão da identidade crespa; Por outro lado,  o documentário é um pouco distante da realidade brasileira. Não digo isso como uma crítica ao documentário em si, afinal ele foi produzido nos Estados Unidos, onde a questão do racismo é bem diferente daqui.
Pra começar, no Brasil, vivemos em um eterno mito da democracia racial. Racismo não existe, negros são bem representados, movimento negro é mero vitimismo. Vocês acreditam que quando mostrei o início do documentário para o meu pai, ele falou que essa questão dos alisamentos é drama? Sim, minhas queridas e meus queridos, eu quase tive um ataque do miocárdio quando ele disse isso. Como se fosse muito fácil assumir o cabelo crespo e cacheado nesse mundo de hoje. Eu não estou pregando o meu pai na cruz, tá gente? Na verdade, o que ele disse descreve a maneira como enxergamos racismo no Brasil,  e consequentemente a maneira como lidamos com alisamentos e progressivas ilegais: jogando a sujeira para debaixo do tapete. É mais fácil fingir que não existe problema nenhum.

Já nos Estados Unidos, o racismo é algo que está debaixo do nariz de todo mundo. Existem desde bairros de negros, até times e esportes de negros, música de negros, dialetos, gírias e linguagem de negros, grupos anti-negros (como a KKK) e um movimento muito forte com expoentes famosos como o Luther King. Dessa maneira, é mais fácil falar de racismo quando ele está tão exposto. E mesmo existindo uma cultura de orgulho negro tão forte, as mulheres afro-americanas continuam alisando os cabelos e gastando rios de dinheiro com apliques.

Agora, vamos voltar ao Brasil. Segundo o IBGE, mais da metade da nossa população é negra. Mas por quê raios a maior parte das pessoas, especialmente das grandes cidades, têm cabelos lisos? Gente, alguém me explica isso porque não consigo entender. Por quê um país com afrodescendência forte é conhecido pelo cabelo liso? Quando eu fiz um intercâmbio, eu ainda fazia alisamentos, e conheci uma família italiana linda, em que todas tinham cabelos cacheados. A mãe dessa família, logo que viu meu cabelo, perguntou se era “alisamento brasileiro”, e disse que queria fazer no dela. Quase chorei de tristeza, porque na época já estava desistindo das progressivas. É injusto que não sejamos conhecidas por nossas molinhas naturais.

 

Ironicamente, eu tinha mais cara de brasileira quando o cabelo era liso

A indústria de beleza lucra com a infelicidade

Não vou contar mais do documentário, não quero que vocês percam a surpresa! Hahaha

Mas o que é legal, é que a crítica por trás desse filme todo é bem clara: existe uma indústria que ganha muito dinheiro com a venda de perucas e produtos para as afro-americanas, para as latinas, para as africanas, para NÓS. Essas pessoas lucram com o descontentamento e com a frustração de não se ter um cabelo “bom”. Honestamente? A ideia de se lucrar por meio da insatisfação criada me parece um tanto quanto cruel. Apesar de alguns errinhos de execução do documentário, e de uma dose pequena de sensacionalismo, Chris Rock problematiza a questão da identidade negra e cabelo crespo de maneira excepcional.


Att (26/01/15): Então, gente, antigamente eu recomendava para vocês me procurarem pelo facebook para assistir ao documentário, mas o site que eu utilizava antes para baixá-lo caiu recentemente. Eu nunca consegui arrumar versão deste documentário dublada, mas tem legendado :)

Mas agora como existem outras opções, então decidi reuni-las para vocês aqui, porque é um documentário bem legal! :D

Baixar por torrent (em inglês) / Legenda separada (português) / Assistir online no Netflix legendado em português

 

 

 

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