Vivendo de amor: sobre emoções e a afetividade negra em bell hooks

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afetividade negra - pensando o amor e a emoção a partir de Bell Hooks - mãe e filha se abraçando

Hoje gostaria de falar sobre laços familiares, relações de amor e de amizade que, acredito eu, marcaram não só minha trajetória, mas a história de outras mulheres negras. Quero dialogar com um texto de bell hooks chamado “Vivendo de amor”, que trata da importância da afetividade negra e discute em que medida muitos processos vivenciados no período colonial e no pós-abolição contribuíram para que o amor tenha se tornado algo tão distante da vida de muitos de nós. Quero também compartilhar alguns dos meus sentimentos e lembranças a partir da leitura dessa obra.

Começo então pela família, uma das primeiras esferas de socialização e aprendizado. Em “Vivendo de amor”, a autora discute como a repressão dos sentimentos se constituiu como estratégia de sobrevivência do povo negro durante o período de escravidão e deixou marcas ainda hoje.

“Nossas dificuldades coletivas com a arte e o ato de amar começaram a partir do contexto escravocrata. Isso não deveria nos surpreender, já que nossos ancestrais testemunharam seus filhos sendo vendidos; seus amantes, companheiros, amigos apanhando sem razão. Pessoas que viveram em extrema pobreza e foram obrigadas a se separar de suas famílias e comunidades, não poderiam ter saído desse contexto entendendo essa coisa que a gente chama de amor. Elas sabiam, por experiência própria, que na condição de escravas seria difícil experimentar ou manter uma relação de amor.

[…]  Depoimentos de escravos revelam que sua sobrevivência estava muitas vezes determinada por sua capacidade de reprimir as emoções. Num documento datado em 1845, Frederick Douglass lembra que foi incapaz de se sensibilizar com a morte de sua mãe, por ter sido impedido de manter contato com ela. A escravidão condicionou os negros a conter e reprimir muitos de seus sentimentos. O fato de terem testemunhado o abuso diário de seus companheiros- o trabalho pesado, as punições cruéis, a fome- fez com que se mostrassem solidários entre eles somente em situações de extrema necessidade. E tinham boas razões para imaginar que, caso contrário, seriam punidos. Somente em espaços de resistência cultivados com muito cuidado, podiam expressar emoções reprimidas. Então, aprenderam a seguir seus impulsos somente em situações de grande necessidade e esperar por um momento “seguro” quando seria possível expressar seus sentimentos”. bell hooks

Endurecer-se diante das dificuldades e concentrar esforços para garantir a própria sobrevivência fez com que muitas gerações fossem ensinadas a “engolir o choro”. Expressões de amor comuns como abraços, frases de carinho e afagos ficaram em segundo plano em muitos lares. Quem já viu “Todo mundo odeia o Chris” deve se lembrar de uma cena em que Julius se despede do filho para ir para o trabalho dizendo “Vejo você de manhã”. Para Chris, aquele gesto era por si só, um sinal de amor. No meu caso, posso dizer que fui criada por uma família em que nunca se diz “eu te amo”, raramente abraços são dados, mas de alguma maneira, a gente sabe que um pode contar com o outro.

Mas aí vem a escola e surgem outros elementos. Desde a infância fui percebida como alguém “inteligente” e essa familiaridade com algumas matérias fazia com que muitos colegas de turma se aproximassem em momentos oportunos como véspera de provas, formação de grupos de trabalho, etc. Assim, por várias vezes me vi envolta por muitas pessoas – principalmente meninos – ansiosos para saber de um conteúdo específico. Quando a fase das avaliações passava, tudo voltava ao normal e muitos colegas voltavam a fazer comentários e brincadeiras maldosas sobre meu cabelo, meu jeito de andar, etc. E assim permaneci me sentindo sozinha durante muito tempo.

No começo da minha adolescência também me vi sozinha no que toca aos relacionamentos. Enquanto várias das minhas colegas – principalmente aquelas de pele mais clara – já se encontravam em relacionamentos sérios, fui bastante rejeitada e ocasionalmente humilhada por meninos de quem eu gostava. Para mim, eles nunca “estavam prontos”, não queriam “se envolver” e se necessário fosse, até negavam que algo já havia existido.

Com essa experiência de solidão fui me forjando “durona”, me afastando por conta própria e esperando pouco ou nada das pessoas (nenhum agradecimento, nenhuma gentileza), ao mesmo tempo em que não conseguia dizer “não” para os pedidos de auxílio. Sabe esse negócio de “fazer papel de trouxa”? Provavelmente eu inventei essa arte. Brincadeiras à parte, aos poucos minha auto-estima foi ficando baixa e só percebi o quanto tudo isso ainda me acompanha recentemente, depois de pensar sobre um acontecimento.

Quando estava terminando minha graduação, passei no mestrado e alguns dias depois a Raysa (sim, a Raysa aqui do blog foi minha colega de curso) me chamou para comer num lugar diferente. Ao chegar lá, mesmo com todos os elementos indicando do que se tratava, não imaginei que era uma comemoração pelo mestrado em NENHUM momento. Eu não imaginei que aquela era uma surpresa pra mim porque mesmo naquele momento – um ano atrás –  era difícil me enxergar enquanto uma pessoa que era capaz de cativar amizades a ponto de receber esse tipo de afeto. Eu nunca me acostumei a isso e  essa sensação nova me emociona até hoje.

Enfim, quero reforçar aqui o que bell hooks diz em “Vivendo de amor”: a prática de amar vem da nossa capacidade de nos conhecer, perceber o que temos de positivo e saber que nossa afetividade é importante. Para a autora, precisamos  reconhecer que nós precisamos de amor e “se acreditarmos que não seremos punidas por reconhecermos quem somos ou o que sentimos, poderemos entender melhor nossas dificuldades”. Assim, as experiências negativas e nossos muitos medos não podem nos impedir de buscar amar.  Por vezes estamos acostumadas a ser o ombro amigo, aquela que aconselha, aquela que está sempre pronta a servir ou militar por uma causa. Mas nós também sentimos, temos fragilidades, temos anseios, precisamos ser ouvidas, precisamos ser cuidadas, precisamos construir redes de apoio e somos merecedoras de viver relações de respeito e carinho.

“Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura”. bell hooks

Que nossas trajetórias sejam de luta, de enfrentamento, de aprendizado, mas também, e principalmente, repletas de amor. 

Bibliografia:

Vivendo de amor. bell hooks Foto de capa: Eye for Ebony on Unsplash

Maressa De Sousa

Maressa, 23 anos, baiana. Mestranda em Antropologia. Ama filmes e livros de ficção e aventura. Para ela, a transição capilar marcou o início de muitas outras transformações.







comments

Comentários

Muito lindo o texto, Maressa!!! Adorei!!!! É sensível, e ao mesmo tempo nos leva à reflexão. Parabéns!!!!

Oi Thalyta! Fico feliz que tenha gostado! Muito obrigada pelo comentário <3

Nossa, parece que você estava contando minha história qdo você fala da sua época na escola e em família! E Eu aos 34 anos tenho dificuldades de lidar com gestos de afeto das pessoas comigo mas, aos poucos tô conseguindo me soltar. Ótimo texto. Parabéns!!!

Muito obrigada por esse texto, me fez refletir muito!


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