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Desde muito pequena eu sabia que queria ser professora, só não sabia de quê. Conforme os anos iam passando muitos parentes repetiam a mesma pergunta, talvez com alguma esperança de que eu mudasse de ideia: “O que você vai ser quando crescer?” e repetia com um sorriso no rosto “professora”. Posso jurar, não duvidei um minuto sequer.

Quando entrei no ensino médio, a urgência de decidir para qual caminho iria seguir era grande. E foi nesse momento que descobri a sociologia através de dois excelentes professores que me recordo com muito carinho. Antes pensava em fazer história, minha matéria favorita na escola até o ensino fundamental. Mas assim que soube da existência do curso de ciências sociais e da potência de transformação que vinha daquelas discussões não restaram dúvidas, era o curso que queria fazer.

Para quem não sabe, o curso de “ciências sociais” reúne três áreas: Antropologia, Ciência Política e Sociologia. A partir delas, as matérias incluem o estudo da cultura e da sociedade, estudo dos sistemas políticos, construção de políticas públicas, metodologia de pesquisa quantitativa, etc. Nesses anos de curso, aprendi com três áreas, mas tenho o maior apreço pela Sociologia.

Foi a sociologia que me ajudou a perceber que existem desigualdades sociais e que em função delas não partimos todos do mesmo lugar: daí a importância de pensar nossas diferenças. Foi estudando sobre o assunto que descobri que existem uma série de marcadores que constroem o que eu sou: mulher, negra, nordestina, estudante. As pessoas possuem muitos outros, e o lugar de onde falamos, nossos desejos e nossas demandas tem muita relação com essas características.

Foi a sociologia que me fez refletir sobre a potência das coisas: das palavras, do nosso próprio, das nossas ações. E foi assim que descobri que há potência no grito e potência também no silêncio.

Foi também a Sociologia e não apenas o Português que me ensinou a dar importância às palavras. O que escrevo, para quem escrevo, como escrevo. Foi pensando nisso que percebi que algumas coisas que pra mim parecem óbvias, para outras pessoas não são. Por isso tenho me esforçado muito para tornar meus textos cada vez mais acessíveis.

A Sociologia (e também a Ciência Política) tem me ajudado a pensar sobre a importância do processo de transição capilar pelo qual eu passei e como minha experiência se aproxima da experiência de muitas outras mulheres negras. Afinal de contas, não somos seres isolados, somos seres de relações. Vários dos textos que se encontram aqui no blog estão sempre em diálogo com a Sociologia. E o fato de ter contato com muitas autoras e autores da Sociologia me ajudou a construir alternativas de enfrentamento do racismo no blog e para além dele. Tenho absoluta certeza de conhecimento é ferramenta de transformação.

A Sociologia me tirou do lugar de conforto, me deu instrumentos para pensar e rever velhas noções. A partir daí comecei a perceber que às vezes tentar assumir uma postura “neutra” diante de situações de profunda desigualdade pode ser uma armadilha que contribui para que isso se sustente.

E sabe de uma coisa? Ter a oportunidade de entrar em contato com essa disciplina no ensino médio e na graduação me ajudou a superar um dos meus maiores medos: expor minhas ideias.

Enfim, posso dizer que mesmo hoje, sabendo das mudanças que estão chegando e tendo plena consciência de que a proposta do fim da obrigatoriedade da disciplina é sintomático, tenho a certeza de que estou no curso certo e sigo considerando a necessidade de uma educação pautada no respeito às diferenças, popular, gratuita e de qualidade.

Leituras recomendadas:

Muito além do currículo flexível

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