Manual antirracista para salões de beleza: ebook gratuito

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Os salões de beleza são espaços com grande potencial para transformar a relação com nossa imagem e nossa autoestima. Mas a verdade é que muitas crespas e cacheadas também já passaram por episódios de racismo e preconceito justamente nesses lugares, que deveriam ser de acolhida e valorização. Pensando nisso, escrevi esse Manual antirracista para salões de beleza, como uma introdução ao tema alguns anos atrás. Para conferir o material completo, acesse o ebook no link. Abaixo deixo um resumo dos tópicos principais.

Pensamento antirracista

A noção de beleza está muito ligada ao nosso contexto cultural. E, embora suas interpretações, símbolos e referências já tenham mudado muito, ainda precisamos rever e combater preconceitos e
estereótipos que fomentam a exclusão.
O debate sobre as questões étnico-raciais é central para estruturar uma sociedade mais justa e não deve ser uma preocupação somente de pessoas negras.

Como aborda Djamila Ribeiro (2019), é urgente pensar na luta antirracista como uma luta que envolve todos nós. Não basta ser “não-racista”: é preciso ser antirracista. Isto é, assumir um papel
ativo, pesquisar sobre o tema e transformar a indignação em ações
concretas.

O QUE É RACISMO ESTRUTURAL?
O racismo é um sistema de dominação na qual nossas diferenças são vistas de forma hierárquica. O racismo não se reflete somente nos padrões de beleza. Ele produz desigualdade de oportunidades de
acesso a bens e recursos e está enraizado nas relações sociais. Quando falamos em racismo estrutural estamos denunciando a
existência de um mecanismo de poder que passa pelas relações familiares, relações trabalho, pela esfera jurídica e pelas instituições públicas e privadas.
Assim, a luta por mais equidade passa fundamentalmente pelo respeito à
diversidade cultural, religiosa, étnica e racial; além de políticas públicas
para promover justiça social com a garantia de acesso a direitos sociais,
políticos, econômicos, culturais e ambientais.

Comece a transformação na sua própria equipe

A mudança começa nos detalhes. Você já pensou sobre a composição da sua equipe de trabalho? Com quem sua empresa se comunica? De que forma? Sua empresa, seu produto ou serviço reflete seus valores? Os colaboradores devem agir orientados pelos valores e o propósito da empresa.

A luta antirracista precisa ser pauta debate e uma preocupação cotidiana e não apenas nas datas comemorativas.

Precisamos reconhecer nossas diferenças, não como uma forma de criar disputas ou divisão, mas de entender o local a partir do qual partimos.

Uma equipe diversa pode ser uma ótima maneira de conectar olhares diferentes sobre as formas de criar e divulgar produtos e serviços. Estabelecer ações afirmativas nesse contexto é buscar estratégias para transformações culturais e pedagógicas para combater o sistema de desigualdade, opressão e discriminação racial que ainda persiste na sociedade brasileira.

Manual antirracista para salões de beleza

Não hierarquize texturas capilares

Não existe cabelo “bom” ou “ruim” nem cabelo “melhor” ou “pior”. O conhecimento sobre a fisiologia dos cabelos permite desenvolver estratégias de tratamento capilar personalizadas a partir das características e necessidades de cada textura capilar. Com o cuidado especializado é possível obter ótimos resultados em todos os tipos de cabelo.

Falar de texturas capilares de forma vexatória, tratar o cabelo crespo como um “defeito” e fazer crer que um crespo volumoso deve ser “domado” são exemplos a serem evitados.

1 EM CADA 3 MULHERES diz já ter sofrido preconceito por conta do seu cabelo.(Dossiê dos Cachos Google Brabdlab, 2017)

Use vocabulário técnico

Muitas palavras e expressões que ouvimos e reproduzimos ao longo do tempo podem causar constrangimento e sofrimento para as pessoas. Para evitar que isso ocorra, precisamos nos reeducar. Adotar termos técnicos demonstra respeito e ética profissional para acolher a diversidade de texturas capilares. Por vezes as pessoas que buscam atendimento já sofreram muitas formas de discriminação e violência e trazem consigo uma percepção internalizada que rejeita as próprias características. Contudo, é parte do nosso papel como profissionais da beleza e da saúde capilar contribuir para o desenvolvimento de mais autoconfiança corporal e autoestima por meio de serviços especializados e da valorização das características que tornam cada pessoa singular.

Não faça alisamento compulsório

Nos últimos anos muitas cacheadas, crespas e onduladas se afastaram dos salões de beleza em função da pressão pelo uso de métodos de alisamento e do receio de ter o cabelo alisado sem consentimento.O respeito à apresentação pessoal de cada cliente é essencial.A clareza sobre os objetivos de cada procedimento é fundamental na venda de produtos ou serviços em respeito às normas de defesa do consumidor e em consonância com os princípios éticos que devem guiar todos os profissionais. A higienização adequada de aparelhos e outros materiais utilizados no atendimento além de ser uma obrigação das normas de biossegurança é também uma forma de minimizar os riscos de contaminação cruzada e alisamento indesejado. Outra preocupação deve ser estudar para compreender cada vez mais as formulações cosméticas. Ao conhecer melhor os ativos cosméticos e suas funções é possível eleger as ferramentas cosméticas que oferecem segurança, respeitam a saúde capilar dos consumidores e advém de marcas que atuam junto aos profissionais de forma ética e não predatória/exploratória.

Entenda a demanda

É importante para compreendermos a complexidade envolvida em nosso pensamento, nossa imagem e aforma como nos colocamos no mundo. O profissional precisa ser sensível em relação a essas minúcias e compreender que o desejo de mudança não deve ser imposto e que identidade não é cristalizada. Não se pode impor a ninguém um tipo de cabelo,de vestuário, maquiagem ou quaisquer outros elementos.

Manual antirracista para salões de beleza

Pra arrumar tem que alisar?

“Arrumar o cabelo” não precisa ser sinônimo de alisamento. Ofereça opções de penteados para realçar a curvatura natural. Criar um catálogo online ou impresso com referências de estilização em cabelos cacheados,crespos e ondulados pode ser uma ótima maneira de inspirar seus clientes . A possibilidade de utilizar o cabelo natural em ocasiões especiais pode trazer mais autenticidade e conforto para quem se identifica com a própria textura.

Respeite quem quer alisar

As tecnologias atuais permitem a formatação dos cabelos deacordo com as necessidades de cada cliente. Sabemos que a passagem pela transição capilar e o uso do cabelo natural cresceu entre as brasileiras. Contudo, o alisamento capilar ainda é a preferência de muitas pessoas. Uma pesquisa do Google (2017) afirma que quanto velha é a mulher, mais difícil é assumir o cabelo natural. Uma das explicações possíveis é o fato de que muitas delas adquiriram o hábito de alisar ao longo de décadas, sendo difícil se conectar com uma nova imagem e recomeçar do zero. A noção de que essa modelagem trará praticidade para o seu estilo de vida também pode interferir na decisão pelo alisamento. Para atender esse perfil de público é preciso entender melhora ação dos mecanismos de alisamento para oferecer uma mudança segura. A estrutura dos cabelos crespos por vezes é mais delicada e apresenta menos resistência mecânica e química em comparação aos cabelos lisos. Assim, é preciso avaliar cada caso para estabelecer uma uma estratégia de transformação e cuidado.

Diversidade nas redes sociais

As clientes querem se sentir representadas e incluídas nas redes sociais das marcas que acompanham. Compartilhar diferentes texturas capilares, cortes, penteados e finalizações demonstra a versatilidade e diferentes possibilidades de cuidado oferecidas pelo seu espaço.Segundo um Dossiê do Google (2017) sobre a transição capilar, 52% do público quer que as marcas abram espaços para participação: querem se sentir informados e envolvidos.

Por isso valorize seu público,responda aos comentários, crie enquetes para conhecer seus interesses, reposte feedbacks e crie uma comunicação próxima. Cada vez mais a decisão de compra é influenciada pelo conteúdo que as marcas compartilham em suas redes sociais.

Não seja conivente com o racismo

Todos nós estamos aprendendo e a desconstrução acontece diariamente. Por isso, antes de lançar uma nova propaganda, serviços ou produtos, consulte profissionais preparados para desenvolver o conteúdo de forma adequada. No cotidiano da empresa, busque ouvir com atenção, não minimizar a dor do outro, dialogar e aprender com essa experiência. Ao se deparar com uma situação de agressão, tentativa de inferiorização, ofensas e discriminação, denuncie.Não se cale diante do racismo.

LEGISLAÇÃO: O artigo 5º da Constituição brasileira define que o racismo “constitui crime inalienável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão”. Numa decisão recente de 28 de outubro de2021, o STF estabeleceu que o crime de injúria racial configura um dos tipos penais de racismo e é imprescritível.

Bibliografia – Manual antirracista para salões de beleza

RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

RODRIGUES, Cristiano. Atualidade do conceito de interseccionalidade para a pesquisa e prática feminista no Brasil. Seminário Internacional Fazendo Gênero, v.10, p. 1-12, 2013.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000 p. 73-102. Último acesso em: 01/11/2021.<http://www.lite.fe.unicamp.br/papet/2003/ep403/a_producao_social_da.htm>WOOD

WARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais, v. 15, p.7-72, 2000.

Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça. GPP -GeR. Modulo IV. Orgs. Maria Luiza Heilborn, LeilaAraújo, Andréia Barreto. Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas Públicas para as mulheres, 2011.

Google BrandLab. O Dossiê dos cachos, São Paulo, 2017.Último acesso em 01/11/2021.<https://www.thinkwithgoogle.com/intl/pt-br/estrategias-de-marketing/video/revolucao-dos-cachos/>

Maressa De Sousa

Maressa, 31 anos. Pós graduada em Tricologia e Ciência Cosmética. Técnica em Terapia Capilar. Cientista Social, mestra em Antropologia. Cabeleireira especialista em curvaturas.

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