A luta contra o racismo é pelo direito de estar vivo

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Falar de racismo é tratar de um tema amplo e portanto difícil de ser definido em poucas palavras. Na tentativa de tratá-lo  por aqui, vamos partir da ideia de que o racismo está associado a um sistema em que relações de poder distribuem recursos econômicos, políticos e simbólicos de forma desigual segundo uma lógica que legitima e alimenta a suposta superioridade de um grupo sobre o outro. (Maria Luiza Heilborn, Leila Araújo et al, 2010) Assim, no Brasil a população negra é a maioria em termos demográficos, mas é também aquela que obtém menores rendimentos, está subrepresentada na política e em grandes meios de comunicação e é a parcela que mais morre por crimes violentos.

A luta antirracista é pelo que se chama de “representatividade” (presença em espaços midiáticos, na produção cultural, nas instituições políticas, etc), é pelo acesso a direitos básicos como saúde e educação e é acima de tudo, pelo direito de estar de vivo. Por vezes, se tem a sensação de que a violência no Brasil alastrou-se, é endêmica e está em todos os cantos. Essa percepção tem lá suas razões, já que certamente a consequência desse ciclo de violência é a chegada de  crimes visíveis como assaltos e roubos em regiões antes tidas como “pacatas” e regiões abastadas. Apesar disso, há muito tempo a violência, a exclusão, a humilhação e os abusos de poder, possuem um caminho preferencial e sabem bem para onde se dirigir. A população negra, principalmente os jovens negros com baixa escolaridade, ainda são as maiores vitimas da violência no Brasil segundo o Atlas da Violência de 2017.

Frequentemente, o entrecruzamento entre raça e pobreza coloca a população negra num lugar de suspeita utilizado para justificar ações invasivas e violentas. Às vezes fazem parecer que a violência é constitutiva das periferias e que a política da morte* é a solução para alcançar a paz, mas muitos se esquecem dos mecanismos pelos quais essa violência é gerada e alimentada todos os dias. Falam como se a “moralidade” fosse um valor externo a ser implantado, mas pouco se importam se quaisquer normas legais e institucionais são quebradas em favor dos próprios interesses. 

Às vezes querem convencer que o problema é que essa população vive de “ócio”, é “encostada”, é “tudo vagabundo”. Mas quantas moradores de periferias saem para trabalhar de madrugada e só voltam pra casa pra pregar os olhos e retomar a rotina no dia seguinte? Quantos nem sabe o que é esse tal de lazer? Quanto prédio construído que a gente nem pode pisar? Quantos “enganos”, quantos atos são justificados como resultado de uma “confusão”? Quanta “bala perdida”? Quantas mortes em função de uma guerra sem fim? É tanta morte anunciada, é criança que tem a vida tirada na barriga da mãe, no carrinho de passeio e na porta de casa. Tantos de nós, que não tiveram a dádiva de sonhar … E a gente vai ficando com cada vez mais medo, angustiado e evita tantas coisas, vigia as palavras, as roupas, os gestos e tenta se resguardar como pode.

E a gente teme e muito, porque sabe que nessa dinâmica certos vidas valem menos que outras, certos corpos simplesmente podem “desaparecer” e sabe que para muitos a política do terror é sinal e caminho para um Estado presente. Nessa balança que se funda na desigualdade, faltam oportunidades e pesa o ódio que autoriza a continuidade do ciclo.

Tanta dor não é exceção, mas uma regra em muitas regiões.  A política sobre nossos corpos se tornou moeda de troca e “a transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política”. (MBEMBE, Achille, 2017).  E agora, para onde vamos correr?

A cidade do povo colonizado (…) é um lugar de
má fama, povoado por homens de má reputação.
Lá eles nascem, pouco importa onde ou
como; morrem lá, não importa onde ou como.
É um mundo sem espaço; os homens vivem uns
sobre os outros. A cidade do colonizado é uma
cidade com fome, fome de pão, de carne, de
sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado
é uma vila agachada, com uma cidade sobre
seus joelhos (Apud: Mbembe, 2016) 

Dizem por aí que o caminho mesmo é a meritocracia, que assim a gente foge da violência e ganha status de “cidadão de bem”. Será? Se e a gente isolar a idade, se não falar em escolaridade, em sexo, em estado civil ou até se desconsiderar a região onde se mora,  as pessoas negras ainda sim possuem 23,5% mais chances de serem assassinadas, segundo o Atlas da Violência (2017). Assim, não importa se a gente é advogado(a), professor(a), estudante, médico(a), político(a), empresário(a) ou faxineiro(a), o risco de ter a vida silenciada é uma constante. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. E eu me pergunto de novo: pra onde a gente vai correr? Essa semana eu tive medo, quase não dormi.

 

Referências bibliográficas

Atlas da violência 2017. Ipea. Disponível em: <www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/2/2017>

Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça GPP – GeR Módulo III/ Orgs. Maria Luiza Heilborn, Leila Araújo, Andreia Barreto. – Rio de Janeiro: CEPESC; Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010.

Entendendo a violência do Rio: a criminalização da pobreza. Disponível em <rioonwatch.org.br/?p=21553>

MBEMBE, Achille. A era do humanismo está terminando. Revista Forum,  06 de agosto de 2017

*MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 32 | dezembro 2016. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169>.

Seis estatísticas que mostram o abismo racial no Brasil. Carta Capital, 20 de novembro de 2017.

Maressa De Sousa

Maressa, 24 anos, baiana. Mestranda em Antropologia. Cabeleireira. Ama filmes e livros de ficção. Para ela, a transição capilar marcou o início de muitas outras transformações.







comments

Blog Comments

Eu só queria dizer que eu amei o seu texto, e que estamos juntos nessa luta. Senti cada palavra como se estivesse me cortando pois sei que isso é o retrato de uma realidade que está bem aqui, na nossa frente.
Belíssimo texto, traga mais coisas assim pra cá por favor. <3

Que bom que gostou Rafaela, fico muito feliz quando esse debate ecoa aqui no blog e as pessoas demonstram interesse. É algo que realmente me afeta e de certa forma, me motiva para continuar.

Abraços!


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