Cinema

Resenha do documentário “Good Hair”, com Chris Rock – 2009

10 de julho de 2014

O documentário “Good Hair” – em tradução livre, “Cabelo Bom”, é estrelado e produzido pelo comediante Chris Rock, pela HBO. Assim como em terras tupiniquins, nos Estados Unidos, cabelo liso é chamado “bom”. Essa dualidade, entre cabelo crespo, e cabelo liso, é explorada pelo filme, mostrando o que as afro-americanas são capazes de fazer para alcançar os sonhados fios lisos. Qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência, não é gatinhas?

Quando crianças se acham feias, tem algo errado

O filme começa com imagens das filhinhas lindas do Chris Rock (SIM! O mesmo de Todo Mundo Odeia o Chris), e ele diz assim (em tradução livre): “As minhas filhas são as meninas mais lindas do mundo. E mesmo que eu diga pra elas todos os dias que elas são lindas, às vezes não é suficiente. Ontem, Lola chegou em casa chorando e falou: ‘Papai, por quê eu não tenho cabelo bom?’ Eu fico imaginando, como ela apareceu com essa ideia?'”

A partir dessa indagação (“de onde minha filha tirou a ideia de que o cabelo dela não é bom?”), Chris mostra depoimentos de celebridades, de pessoas comuns, de salões de beleza, expondo uma indústria que fatura milhões vendendo cabelo liso. Claro que, por ser um comediante, ele mostra essas situações todas sempre de forma bem engraçada.Então não se preocupem, não é um daqueles documentários de quatro horas sobre baleias. Good Hair é bem engraçado.


A realidade estadunidense versus a realidade brasileira

A experiência de assistir ao documentário é bastante curiosa. Por um lado, eu me identifiquei com várias das questões ali problematizadas: químicas de relaxamento que são feitas em crianças, padrões de beleza ideais e majoritariamente brancos, supressão da identidade crespa; Por outro lado,  o documentário é um pouco distante da realidade brasileira. Não digo isso como uma crítica ao documentário em si, afinal ele foi produzido nos Estados Unidos, onde a questão do racismo é bem diferente daqui.
Pra começar, no Brasil, vivemos em um eterno mito da democracia racial. Racismo não existe, negros são bem representados, movimento negro é mero vitimismo. Vocês acreditam que quando mostrei o início do documentário para o meu pai, ele falou que essa questão dos alisamentos é drama? Sim, minhas queridas e meus queridos, eu quase tive um ataque do miocárdio quando ele disse isso. Como se fosse muito fácil assumir o cabelo crespo e cacheado nesse mundo de hoje. Eu não estou pregando o meu pai na cruz, tá gente? Na verdade, o que ele disse descreve a maneira como enxergamos racismo no Brasil,  e consequentemente a maneira como lidamos com alisamentos e progressivas ilegais: jogando a sujeira para debaixo do tapete. É mais fácil fingir que não existe problema nenhum.

Já nos Estados Unidos, o racismo é algo que está debaixo do nariz de todo mundo. Existem desde bairros de negros, até times e esportes de negros, música de negros, dialetos, gírias e linguagem de negros, grupos anti-negros (como a KKK) e um movimento muito forte com expoentes famosos como o Luther King. Dessa maneira, é mais fácil falar de racismo quando ele está tão exposto. E mesmo existindo uma cultura de orgulho negro tão forte, as mulheres afro-americanas continuam alisando os cabelos e gastando rios de dinheiro com apliques.

Agora, vamos voltar ao Brasil. Segundo o IBGE, mais da metade da nossa população é negra. Mas por quê raios a maior parte das pessoas, especialmente das grandes cidades, têm cabelos lisos? Gente, alguém me explica isso porque não consigo entender. Por quê um país com afrodescendência forte é conhecido pelo cabelo liso? Quando eu fiz um intercâmbio, eu ainda fazia alisamentos, e conheci uma família italiana linda, em que todas tinham cabelos cacheados. A mãe dessa família, logo que viu meu cabelo, perguntou se era “alisamento brasileiro”, e disse que queria fazer no dela. Quase chorei de tristeza, porque na época já estava desistindo das progressivas. É injusto que não sejamos conhecidas por nossas molinhas naturais.

 

Ironicamente, eu tinha mais cara de brasileira quando o cabelo era liso


A indústria de beleza lucra com a infelicidade

Não vou contar mais do documentário, não quero que vocês percam a surpresa! Hahaha

Mas o que é legal, é que a crítica por trás desse filme todo é bem clara: existe uma indústria que ganha muito dinheiro com a venda de perucas e produtos para as afro-americanas, para as latinas, para as africanas, para NÓS. Essas pessoas lucram com o descontentamento e com a frustração de não se ter um cabelo “bom”. Honestamente? A ideia de se lucrar por meio da insatisfação criada me parece um tanto quanto cruel. Apesar de alguns errinhos de execução do documentário, e de uma dose pequena de sensacionalismo, Chris Rock problematiza a questão da identidade negra e cabelo crespo de maneira excepcional.


Att (26/01/15): Então, gente, antigamente eu recomendava para vocês me procurarem pelo facebook para assistir ao documentário, mas o site que eu utilizava antes para baixá-lo caiu recentemente. Eu nunca consegui arrumar versão deste documentário dublada, mas tem legendado :)

Mas agora como existem outras opções, então decidi reuni-las para vocês aqui, porque é um documentário bem legal! :D

Baixar por torrent (em inglês) / Legenda separada (português) / Assistir online no Netflix legendado em português

 

 

 

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14 Comentários

  • Reply Lara 11 de julho de 2014 at 13:55

    Oi Rayza,o que você escreveu descreve bem a realidade da maioria das mulheres aqui no Brasil,sempre tentando seguir um padrão:cabelo liso e olho azul é sempre mais bonito,mulher mais bonita é aquela que tem seios e bunda grande(pelo menos na cabeça da maioria),mas eu fico feliz por entender que nemtudo se mede pela aparência.tenho cabelos cacheados e enormes(pq gosto dele grande),mas desde os 13 ou 14 anos eu faço escova e chapinha,mas nunca fiz nenhum tipo de alisamento, progressiva ou coisa assim,porém sei que todo esse processo de secador e chapinha frequentemente danifica demais os cabelos;no início do ano deixei meu cabelo cacheado e…NOSSA!!!foi umas das maiores surpresas da minha vida,SEM EXAGERO…mas aí meu sonho acabou porque o frizz começou a incomodar e eu nao soube bem como lidar com a situaçao,o fato de ter que molhar todo dia e como a gente sempre acha um engraçadinho pra fazer uma piadinha desagradável,sei lá…fiquei meio desanimada e voltei a escovar de novo, TEMPORARIAMENTE ,mas mesmo assim sinto muita falta de minhas molinhas;enfim,depois de ler alguns posts aqui no blog de vocês,tô buscando melhorar a alimentaçao pra evitar alguns problemas que têm me tirado do sério ultimamente(queda,falta de brilho,pontas duplas,triplas…)e um dia,ainda este ano,meus cachos voltam e,não vai demorar tanto,tá?Um obrigado muito especial à todas vocês do blog que me inspiram profundamente a cada leitura;e pra terminar, queria saber se vocês nao podem escrever algo sobre a tal ditadura do corpo perfeito…tá,eu sei que o blog é sobre cabelos e assuntos relacionados a eles,mas eu queria muito seu ponto de vista sobre o tema,se você puder,claro…um beijão enorme!!!

    • Reply Raysa França 11 de julho de 2014 at 18:38

      Oi Lara, tudo bem? Tudo o que você falou é verdade!

      Não podemos nos deixar ser medidas pela aparência, porque nossa maior riqueza (e a dos outros) tá é dentro. Parece bobagem, e parece clichê, mas nossa vida melhora muito mais quando nos interessamos por valores que vão além da aparência.
      Lara, olha, tenho certeza que seus cachos são lindos, amiga! Não precisa se preocupar com o que os outros falam, porque se você gosta, TÁ VALENDO!!!! Olha, uma dica pra você não precisar molhar todos os dias: http://bit.ly/day-after-dicas
      Ali nesse link explica tudinho sobre day after. Mas não precisa levar como regra, porque eu molho meu cabelo TODO SANTO DIA e tô viva e brilhando na passarela, jogando purpurina na cara dos inimigos.

      Sobre suas pontinhas duplas e triplas e seu problema com queda, será que não é quebra não? Usar secador demais e chapinha podem fazer seu cabelo quebrar! Tenta fazer além do cronograma alimentar, o cronograma capilar também! http://bit.ly/cronograma-capilar-cacheia

      Espero que essas informaç~es te ajudem. Sobre sua ideia acerca do corpo perfeito, é super válido, viu gatinha? Eu posso com certeza escrever algo na área de “Off Topic”, mas seria, no mínimo, semana que vem durante o fim de semana.

      Beijocas,

      Ray

      • Reply Lara 15 de julho de 2014 at 14:21

        Oi linda…muito obrigado por ter respondido!Hoje tava bem desanimada e agora que vi sua resposta,fiquei bem mais tranquila…Ray linda!Você salvou meu dia,tá?
        Beijos,fica com Deus!

        Lara

        • Reply Raysa França 15 de julho de 2014 at 14:54

          Oi gatinha!

          Que isso, estamos aí pra nos ajudarmos né?

          Você tem todas as meninas lindas do Cacheia contigo!

          Um beijo,

  • Reply Talitha Ferreira 15 de julho de 2014 at 01:14

    Dei a sorte de ver este documentário legendado no youtube antes que o vídeo fosse deletado pelo site por causa da regra de direitos autorais ou coisa do gênero. Lembro de um trecho em que uma mulher negra de cabelo liso (Não sei se usava peruca ou se o cabelo era alisado) diz na maior cara de pau que não contrataria uma pessoa de cabelo natural e que este tipo de cabelo não combinaria com trajes sociais estilo executivo (Tenho a impressão de que estou fazendo confusão com alguma coisa mas deixa para lá rs). Quando escutei o que foi dito fiquei indignada e pensei: Será que esta moça não consegue perceber que está depreciando uma parte característica que pertence a sua etnia dizendo uma coisa dessas? Será que ela não consegue ver que na verdade está rebaixando a si própria? Não é possível!
    Sou a favor de que as pessoas façam o que quiser com as suas madeixas . Quem quiser alisar alise, quem quiser relaxar relaxe, quem quiser pintar pinte, quem quiser cortar corte e etc…
    Entretanto, a dor de cabeça começa quando as pessoas acham que todo mundo deve seguir um padrão de beleza nem um pouco democrático para ser atraente e bem vista socialmente. Como isso é chato viu!
    Custaria alguma coisa se as pessoas aprendessem a cuidar dos seus próprios cabelos para deixar os dos outros em paz?

    Abraços Raysa !

    • Reply Raysa França 15 de julho de 2014 at 14:53

      Thalitha, pois é, eu procurei no youtube legendado e não estou achando mais =(
      É meio paia isso, agora legendado só baixando mesmo! =[

      O que você falou acontece muito mesmo, mas eu acho que funciona assim: existe uma cultura tão forte, que você vai introjetando em si mesma desde pequenininha, que começa a “repassar”, sem nem mesmo perceber. Quantas vezes falei o cablo de alguém era ruim, sendo o meu próprio cabelo crespo? Isso não tem lógica, mas é difícil de abrir os olhos mesmo.

      O que eu achei engraçado é que em um momento do documentário, mostra a família dona da fábrica de relaxantes: uma família NEGRA. haha Fiquei boba, como se fossem “cúmplices”, lucrando com o próprio racismo.

      Isso que você falou é importante, liberdade para alisar, liberdade para cachear, liberdade pra tudo. Mas se você precisa alisar pra conseguir emprego, você não tá livre, não é?

      Obrigada pela participação! Beijocas,

      Raysa

  • Reply Ana Paula Lima 15 de julho de 2014 at 15:03

    Adorei o post, o documentário parece ser bem interessante e quando é visto desta forma nem parece que essa realidade nos atinja tanto. É triste saber que em pleno 2014 a gente ainda não assuma 100% nossa genética e herança negra, e que as mulheres sofrem tanto pra chegar num determinado padrão de beleza. Eu mesma já fui escrava desses métodos que ficam bons durante 2 meses e depois só dão mais trabalho e dor de cabeça (em todos os sentidos), e isso tudo porque não achava que meu cabelo fosse bonito. Acho digno reafirmarmos todos os dias da nossa herança, e tentarmos mostrar para as crianças (ou melhor dizendo futuro da nação) que o racismo, por mais que digam que não, ainda existe e não devemos deixa-lo nos abalar e sempre combatê-lo mostrando ao mundo que somos bonitas desse jeitinho, de ‘cacholas’ na cabeça!!

    • Reply Raysa França 15 de julho de 2014 at 20:45

      Oie Ana Paula!

      Que bom que gostou… O documentário é bem legal mesmo. Você sabe que existe essa cultura forte quando resolve se assumir, e ouve os comentários contrários.
      Acho que todas, uma hora ou outra, somos escravas. O importante é perceber e tentar se libertar.
      Com certeza, mostrar pras crianças é também fundamental.

      Obrigada pela participação, gatinha!

      Bjocas,

  • Reply maria 16 de julho de 2014 at 14:44

    legal

  • Reply Julia Lessa 18 de setembro de 2014 at 16:00

    Olá, iniciei minha transição agora em março, e pelo que pude perceber, meu cabelo é bem parecido com o seu. Meu pai é negro com cabelos bem crespos e minha mãe branca com fios lisos e muito finos e leves. Resultado: um mix na minha cabeça. Ainda estou digerindo a idéia, mas como trabalho muito formalmente e meu cabelo já é curto, uso a escova. Mas estou adorando ler as coisas aqui. Me incentivam bastante

    • Reply Raysa França 20 de setembro de 2014 at 19:39

      Oi Julia, tudo bem ? É engraçado como muitas pessoas têm problema com o trabalho ='( Ridículo esse mercado de trabalho podando as pessoas… Continue acompanhando e assuma os cachos mesmo porque são lindos! <3

      Bjocas

  • Reply Raisa Vital 10 de novembro de 2014 at 12:16

    O documentário está disponível no Netflix! ;)

  • Reply Hadassa 29 de outubro de 2016 at 16:19

    Em vários países onde estive, quando as pessoas me perguntavam de onde eu sou, e eu dizia que sou do Brasil, elas falavam: “ah, imaginei, por causa do seu cabelo.” Acho que em muitos países, eles pensam que todas as brasileiras tem cabelo cacheado ou ondulado; eles dizem que o Brasilivro tem belezas exóticas, e o cabelo crespo, cacheado é considerado exótico .
    Mas, por outro lado, também tem a imagem do índio nativo, que tem cabelo bem liso. Então, dependa da ideia que a pessoas tem do Brasil.

    • Reply Raysa França 5 de dezembro de 2016 at 19:24

      é verdade! Não dá pra generalizar e dizer que é uma imagem/esteriótipo sempre, né? beijo

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